domingo, 30 de novembro de 2014

Amor + União + Trabalho + Dedicação + Emancipação Artística + Autonomia = Realização e Concretização

                                                                                                             Ensaio PIÁ 2014
Equipamento: Centro Cultural da Penha
Linguagem: Teatro
Artista Educadora: Tatiane Lustoza


Amor + União + Trabalho + Dedicação + Emancipação Artística + Autonomia
=
Realização e Concretização


      Quando tive conhecimento sobre as diretrizes do PIÁ, senti na hora que o trabalho que desenvolvo na Trupe Sinhá Zózima, poderia contribuir de alguma forma para o programa.
Iniciei as atividades sem muitas expectativas sobre o resultado final, porque o que importava era se divertir durante o processo.
Na primeira aula com os adolescentes da turma de 11-14 (anos) do PIÁ, eles disseram que queriam fazer uma peça teatral. Logo percebi que era necessário estabelecer um diálogo franco e sincero para entender melhor essa adolescência cibernética e como despertar um real interesse deles pelo processo artístico que é algo totalmente artesanal e que não dá resultado imediato como eles estão acostumados.
        Certo dia, pedi para eles contarem algo interessante de suas vidas e todos responderam que a vida não tinha nada de interessante, e que muitas vezes era chata e que se pudessem, gostariam trocar de vida e ser outra pessoa. Essa informação me deixou intrigada.
À partir disso decidi propor o seguinte exercício: que cada um levasse um elemento de cada um dos cinco sentidos (tato, olfato, paladar, audição e visão) que tivesse alguma importância em suas vidas e era necessário que cada um explicasse sobre a sua escolha.
     No dia de apresentar os materiais, ocorreu algo fantástico porque expuseram seus medos, angústias, alegrias e sonhos de uma maneira tão verdadeira, pura e poética que compreenderam a importância daquele momento e daquela vivência.
Após encerrar essa etapa, pedi que escrevessem sobre a experiência. Para a minha surpresa e da Paula Barison (artista educadora de música), eles escreveram textos belíssimos e um deles quero compartilhar com vocês.


À VIDA

Quem diria que uma “menina perfeita”
Com saúde e educação,
Teria alguma tristeza
Em seu coração.
A alegria
também existe,
Mas a agonia
sempre insiste.
Com uma palavra consigo dizer
“ o que é vida”?
É simplesmente
uma corrida,
E nela temos que ter
Muita força e felicidade
Para encarar
Essa difícil sociedade.
Mas não devemos
Ter pena dessas pessoas.
Encare isso como uma cena,
E nessa cena,
Todos somos os atores,
Que vivem uma peça
Cheia de cores.
Uma vida colorida,
Sem pensar no que ser,
Sem ser uma vida linda,
Só precisando saber viver.

Pois é assim que somos
Pelo menos para mim.
Por isso que crescemos.
Porque o ato de crescer
É saber viver,
Sempre amadurecer
E entender.
Mesmo sendo uma grande menina
Muita gente
Acha que sou pequenina
Para entender o que a sociedade sente,
Mas todos estão enganados
Sobre esses fatos,
Eu sou a única que sei
Porque sou eu que controlo meus atos.
E para mostrar que gosto da minha vida,
Fiz essa poesia
Para demonstrar a minha alegria!

Autora: Giovanna Monteiro Ciampone –12 anos -  18/06/2014

        Após ler esse texto e vários outros, reconhecemos que aquele material tinha um grande potencial artístico e dialogamos com a turma sobre a possibilidade de escreverem o texto do espetáculo. Todos ficaram muito entusiasmados com a ideia e à partir daí iniciaram o processo de construção do texto.
Quando o texto ficou pronto a turma percebeu que o espetáculo teria custos como cenário, figurino, adereços etc. e vieram nos questionar de onde viriam os recursos para a realização da peça. Nesse momento explicamos que tínhamos que resolver a situação de forma criativa, porque não existe verba destinada para isso. Para tentarmos resolver essa situação, perguntei o que elas sabiam fazer.                   Algumas disseram que sabiam fazer trufas de chocolate, outras sabonetes caseiros, caixinhas decoradas, algumas se diziam excelentes vendedoras, enfim... tinham muitas habilidades que poderiam contribuir para angariar verba para realizar o trabalho. Para iniciarem as atividades, eles pediram para os pais emprestarem uma pequena quantia de dinheiro que seria devolvida assim que os produtos fossem vendidos (o empréstimo não era obrigatório) e conseguiram R$ 120,00 (cento e vinte reais). À partir daí, confeccionaram os produtos e foram divididos em 2 (dois) grupos para iniciar o processo de vendas nos comércios da região com a supervisão das AEs. Para não prejudicar o processo artístico, as vendas ocorreram em 2 (dois) dias, sendo disponibilizado apenas 1 (uma) hora. E os outros dias venderam para parentes e amigos fora do horário do PIÁ. Em 7 dias de trabalho arrecadaram R$ 1.000,00 (mil reais). Com esse dinheiro foi possível comprar figurinos, adereços cênicos, alugar equipamento de som etc.
     O fato de terem feito esse esforço, fez com que olhassem para o trabalho de uma maneira diferente, fez com que valorizassem cada encontro e dessem o seu melhor para a realização da peça. A união e valorização do grupo, a autoestima, o sentimento de capacidade e de pertencimento com o trabalho se tornou grandioso e precioso.
Na reta final do processo, fizemos um ensaio aberto para os pais. Muitos ficaram surpresos pelo fato dos filhos se dispuserem a encenar, escrever a peça e a música do espetáculo. Vários pais deram sugestões incríveis para melhorar o trabalho e foi maravilhoso ver a alegria deles por ter a oportunidade de estabelecer um diálogo artístico com os seus filhos. Nesse momento percebi que o PIÁ transcendeu a estrutura arquitetônica do CCP e permitiu que essas famílias vivessem algo realmente especial.
      Com esse trabalho, sinto que plantamos uma semente para eles compreenderem os mecanismos para a realização de uma ação cultural e que mesmo com todas as limitações é possível o artista existir, criar e realizar seus trabalhos. Também perceberam que a união do grupo é uma força decisiva para a concretização de qualquer trabalho e que a arte é uma ferramenta genuína de expressão e que pode e deve ser utilizada por todos.



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