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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Artista Educador - Coordenador de equipe - bifurcações, idas e vindas

PIÁ 2014 - ENSAIO DE PESQUISA - AÇÃO

ANTONIO FRANCISCO DA SILVA JUNIOR
COORDENADOR DE EQUIPE - BIBLIOTECA HANS CHRISTIAN ANEDERSEN

As imagens transbordam fugitiva
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Artista Educador - Coordenador de equipe - bifurcações, idas e vindas



O Programa de Iniciação Artística tem sido o lugar do encontro, dos erros e acertos, e do diálogo entre adultos e crianças mediado pela arte e pela educação estética. Os diferentes projetos e processos artísticos que se instauraram em 2014 têm partido da relação. Relação entre as diferentes linguagens artísticas, relação entre pessoas (entre adultos, entre crianças, entre adultos e crianças) e relação com o lugar de atuação (equipamento e entorno). É indispensável, portanto, olhar para as experiências a partir da observação do "entre", e neste sentido a coordenação da equipe, realizada por um Artista Educador - Coordenador, tem papel fundamental na mediação e  orientação dos processos.  
A possibilidade de existir uma coordenação de equipe que também atue diretamente com a criança, é uma da primeiras características da atual organização do programa, e permite um lugar de dupla função - bifurcado - com a mesma raiz, que é assegurar um espaço de experiências estéticas às crianças e adolescentes.
Para colocar em prática essa função bifurcada é necessário um entendimento inicial de quem sou e onde estou e também com quem estou. A partir destas três perguntas que, não serão totalmente respondidas, surgiram outras perguntas, que não precisam ser respondidas, mas que precisam ser perguntadas para que se possa começar a construção de projeto compartilhado, que parta de um olhar sensível, que seja um projeto aberto, que escute e leve em consideração o outro, e neste caso o outro é o outro adulto e outro criança.

            "O planejamento para educação estética, precisa ser um planejamento aberto e                                                              brincante". ( Marina Marcondes Machado)

Ao longo do ano surgem vários  outros projetos, propostas, experiências, experimentos que necessariamente precisam dialogar com os desejos das crianças, foco principal do programa, por isso é necessário que os adultos ampliem cada vez mais seu repertório na infância e, parafraseando Marina M. Machado, na infância de hoje.
Em 2014 alguns projetos artísticos pedagógicos desenvolvidos na Biblioteca Hans Christian Andersen exemplificam bem e  jogam luz na função bifurcada do AE Coordenador, tema do discurso deste ensaio. Um deles foi um projeto desenvolvido por uma dupla de artistas educadores com a turma de 11 a 14 anos, que asseguraram os desejos das crianças de realizar um vídeo com a temática do terror. O principio da proposta estava dada: "Queremos fazer um filme de terror", afirmava em uníssono a turma. Os artistas educadores permitiram a experiência acontecer colocando uma maquina digital nas mãos das crianças que captavam imagens, criavam situações e, com o olhar cuidado, selecionavam registros sobre a temática exposta. Os acontecimentos dos encontros dessa dupla de AEs com essa turma, eram relatados nas reuniões de equipe, questões eram levantadas, formas de condutas eram discutidas e entre encontros e desencontros o projeto continuava. Após algumas semanas de registros, foi feita edição das imagens... E agora o que fazer com o vídeo montado?
Novamente na reunião de equipe chegamos juntos á proposta de exibir o filme dentro de uma cabana que havia sido montada no saguão da biblioteca, por outra turma, numa reunião regional, com outras equipes da zona leste 1. A dupla de AEs juntamente com o olhar "de fora", mas também de dentro, do Coordenador AE, planejaram a forma como seria feita a exibição, quase como uma video-performance, com interação a ativação da obra a partir da criação de textos e inserções ao vivo no filme.
A ideia original das crianças, a contribuição dos AEs e do Coordenador AE, fez com que fosse produzido um material artístico com um apurado rigor estético que serviu de material de formação para um encontro de AEs de quatro equipamentos diferentes. Eis que é trazido às  discussões de equipe a característica auto-formativa do programa, e a importância de um olhar externo mas não alheio ao processo artístico-pedagógico de uma determinada turma, e/ou de um determinado projeto.

            E são a descontinuidade e a imprevisibilidade algumas das principais matérias-primas com as quais lida a arte contemporânea. Rupturas de espaço e tempo, questionamento de verdades, desequilíbrio, o novo, o inesperado. A arte contemporânea é feita da irrupção de acontecimentos. (Luciana Grupelli Loponte)

As propostas com vídeos, terror e personagens macabros continuou se desenvolvendo a medida em que mais crianças entravam na turma (outra característica do programa, que mantém um fluxo de idas e vindas), a medida que os AEs iam conhecendo cada participante, e as discussões a respeito do trabalho realizado também foi se aprofundando com referências levadas pelos adultos em diálogo com as referências das crianças e o projeto foi ganhando mais corpo, os participantes foram ganhando mais corpo (literalmente) através de jogos e exercícios propostos pelos adultos para atingir os objetivos propostos pelas crianças.
Referências estéticas de cinema de terror, desde clássicos, como Nosferatu até  Pânico, foram levadas e discutidas entre adultos e entre adultos e crianças. Esse é um outro aspecto que mais salta aos olhos neste processo, a discussão, a relação dialógica do processo de ensino e aprendizagem, por que não usar os conceitos de Paulo Freire, em que ninguém ensina ninguém e ninguém aprende sozinho, e sim o processo de dá numa via de mão dupla, bifurcada com possibilidades de idas e vindas. Na finalização do projeto um dos artistas educadores da turma sugere que as crianças visitem a exposição Made in Brasil - Feita por brasileiros - No prédio  antigo hospital Humberto Primo, novamente o compartilhamento das ideias em reuniões artístico-pedagógicas, gera outra abertura e outro caminho descontinuo para o acontecimento da proposta.

                Curiosamente, a raiz etimológica de saber, sapere, significa ´´ter gosto`` (a expressão saber bem ou saber mal, no sentido de ser gostoso ou não, aplica-se constantemente ao paladar). Conhecer a arte é aprender a olhá-la criticamente, isto é, experimentar a transformação do olhar pelo prazer e pela emocionalidade que a sua fruição proporciona e pela experiência adaptativa relevante para o bem-estar psicológico (Dutton, 2003) até porque recontar histórias, por imagens visuais, auditivas e linguísticas conduz à imaginação e ao visionamento de acções futuras e permite a criação e a expressão de uma sensibilização para as múltiplas dimensões da vivência quotidiana.
                                                                                                                                                              (Sara Bahia)

O olhar da coordenação da equipe mais uma vez colabora, um dos AEs e o coordenador fazem uma primeira visita a exposição e após discutirem as possibilidades e potencialidades da mesma para as crianças, levam-nas à visita, que faz todo o sentido no toca a espacialidade sombria, a (re)significação de espaços, a interferência da obra artística num espaço abandonado, as vídeo - instalações e principalmente todas as referências  que estavam contidas na exposição.
Há na biblioteca um espaço ocupado pelo PIÁ desde 2013, que é a antiga casa do caseiro, que estava em desuso pela biblioteca e possui todas as características para uma ocupação artística, com intervenções, instalações e video-instalação, esta casa já faz parte do imaginário dos participantes do programa, adultos e crianças, e serviu de locação para as filmagens do curta de terror produzido pelas crianças.
Após toda essa incursão por universos sombrios, aterrorizante e até marginal, o processo da turma foi compartilhado com as demais crianças e adultos do programa às 0h00 do dia 18 de outubro dentro da programação do tradicional acampadentro, uma noite inteira em que as crianças acampam dentro da biblioteca produzindo novos espaços de interação,  e (re)significando espaços fixos e fluxos.





 ARTIGOS DE REFERÊNCIAS

Arte e metáforas contemporâneas para pensar infância e educação


Luciana Gruppelli Loponte

http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1645-72502010000200005&lang=pt


Considerações sobre a educação para a arte e para a cultura, ou ´´como levar Clio à escola

Sara Bahia

Rev. Lusófona de Educação  n.16 Lisboa  2010
Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa. Investigadora da UIDEF.sarabahias@gmail.com



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Uma escolha estrutural mais ou menos dramática para um ensaio de pesquisa-ação pelo envolvimento tocante e enternecedor da artista-educadora com o PIÁ

Uma escolha estrutural mais ou menos dramática para um ensaio de pesquisa-ação pelo envolvimento tocante e enternecedor da artista-educadora com o PIÁ

CEU Sapopemba
AE: Maryah dos Santos Figueiredo

Prólogo - prolongado
Desde que me mudei para São Paulo, em fevereiro de 2013, soube de imediato do Programa de Iniciação Artística (PIÁ) por procurar projetos artísticos e educativos na cidade e a referência do PIÁ ser sempre muito presente e vibrante; amigos e colegas ex-AEs ou AEs que falavam do Programa de maneira muito carinhosa, afetuosa. Duas das amigas do grupo de dança que integro, o [-MOS], Karime Nivoloni, que foi artista-educadora do PIÁ até 2012 e Valeska artista-educadora da EMIA, aproximavam-me de alguma forma do PIÁ. Como ensaiamos com nosso grupo duas vezes por semana desde o ano passado na EMIA, observava as crianças brincando no parque (entre folhagens bem verdes e suculentas, formigas grandes, ar que se conecta com a terra), os timbres dos instrumentos que se repetiam, lenços dançantes através dos vidros das janelas, ateliês de pintura... E os papos de criação e improvisação permeados pelas crianças. As crianças! Sentia muita falta de estar mais em contato com elas. E o edital do PIÁ abriria só em dezembro. Minha ansiedade em achar grupos de trabalhos artísticos, escolas, possibilidades de emprego para me manter na cidade fez dos meus dias cinzentos e neuróticos, como o centro da cidade, local que resido até hoje.

A minha maior alegria do início do ano (2014) foi ver meu nome na lista da primeira fase do Edital de Chamamento para Credenciamento de Artistas nos Programas de Divisão Artística e Cultural como artista-educadora do PIÁ. E estava novamente na segunda-fase, fiquei em 19ª colocação. E chamaram até a 19ª da lista, e... Quase. Dois artistas-educadores recorreram e fui para 21ª colocação. À espera de desistências, pedia às forças terrenas e siderais para que os possíveis contratados encontrassem incríveis outros trabalhos, porque eu queria muito o PIÁ, estava até então em paixão platônica quase desesperada.


PIÁ - ATO I – apresentação, recepção, primeiros contatos
Entrei para o Programa de Iniciação Artística (PIÁ) no CEU Sapopemba, em junho para substituir a AE[1] Martina. A coordenadora artista-educadora Ana Paula entrou em contato comigo e me reuni com a equipe (Ana Paula, Marília e Fabio) neste CEU uma semana antes de iniciar os encontros com as crianças. Na minha agenda anotei a partir da conversa que tivemos: “Terça-feira – turma de CCA (a mais complicada)*, de 5 a 10 anos, das 9h às 12h (8h30 às 11h), dupla: Fabio; Quarta-feira manhã - 8 a 10 anos das 9h às 12h, dupla Ana Paula; Quarta-feira à tarde – 8 a 10 anos (turma agitada) das 13h às 16h, dupla: Fabio; Quinta-feira – (menor turma) 8 a 10 anos, das 9h às 12h , dupla: Marília; Sexta-feira – Reunião de equipe das 9h às 13h.”
* A questão CCA[2]: A falta de inscrição de crianças, especificamente na terça-feira, fez com que Moisés (NAC) sugerisse uma ida ao CCA Guadalupe, para conhecer as crianças. Caso os AEs achassem que coubesse ao Programa, proporiam uma parceria com o CCA. Nos primeiros encontros os AEs Fabio e Martina iam até o CCA e lá desenvolviam as atividades. Depois de conhecer as crianças, os AEs dialogaram e chegaram a um acordo com a Marta (assistente social do CCA) que eles poderiam levar para o CEU Sapopemba no máximo 19 crianças (que teriam as fichas de inscrição com autorização dos pais e, Marta assumir-se-ia como responsável pelas crianças). Quem levaria? Os AEs e mais duas responsáveis do CCA. Um trajeto de 10 minutos que inclui a travessia da Av. Sapopemba. Quem escolheu as 19 crianças, entre mais de 30, que iriam para o PIÁ? As assistentes sociais do CCA. Como estavam acontecendo as idas para o CEU? Só uma assistente social do CCA estava acompanhando os AEs para levar as crianças e não duas responsáveis, como havia sido acordado. Os AEs estavam dispostos a abarcar o CCA no PIÁ, mesmo em tais condições. Para mim foi muito difícil quando soube o que vinha a assumir, falei no mesmo dia que não teria aceitado esse tipo de acordo, principalmente pela travessia, que no meu ver, é muito perigosa e não cabia essa responsabilidade no que eu acreditava ser minha função no PIÁ. Sinceramente, era como se eu não tivesse escolha, embora a equipe jamais tenha me imposto algo do tipo: “você vai ter que assumir isso, não há outro jeito”. Esse caso foi colocado para mim como algo para se refletir. A Ana perguntou o que eu achava... Mas começando o Programa de Iniciação Artística, só era meu primeiro dia, decidi encarar e começar a minha relação com o CCA estendendo a relação PIÁ-CCA que já havia iniciado. Deixei claro para a equipe que tal condição não era confortável para mim e esta se mostrou aberta a conversas e trocas, que eu me sentisse no processo o qual poderia ser revisto e adaptado.

A primeira semana de PIÁ se resumiu na terça-feira e quarta-feira (03 e 04 de junho) porque quinta-feira os metrôs entraram em greve o que se estendeu para sexta-feira, e a cidade entrou em caos geral, pessoas “superlotando” os ônibus demorando de 4 a 5 horas pra chegar aos seus trabalhos, isso quando conseguiam. Conversamos entre equipe e achamos melhor avisar aos pais que o encontro de quinta-feira seria cancelado.
Terça-feira quando cheguei no CCA, as crianças me receberam imediatamente e carinhosamente com abraços. A manhã foi intensa, qualidade furacão, explosivo, perigoso. No caminho até o CEU, a tensão de olhos por todos os poros atentos para as crianças que seguiam conosco agitadas, falantes, sedentas. No CEU brincamos com algumas propostas corporais que variavam os níveis no espaço (alto-médio-baixo), entre outras tentativas as quais duravam no máximo 2 minutos (essa foi minha sensação)... E o caos tomava conta (brigas entre eles, lutinhas, xingamentos, gritos, corre-corre para todos os lados). Fotografamos autorretratos em P&B das crianças, os imprimimos e depois elas pintaram essas fotografias com tinta acrílica, revelando cores e intensidades dos seus rostos, brincando com figura-fundo, traços, colagens, “facetagens”. Elas tinham sede pelas tintas, lambuzavam-se, espalhavam o material, faziam rasgos, rabiscavam por cima umas das outras. Era agressivo, destrutivo, reconstrutivo. Contato vivo e feroz com aquele material a ser revelado, universo borrante e berrante. Muitas delas pedindo, chamando ao mesmo tempo, um tumulto: “o meu está bom?”, “e o meu?”, “eu pedi primeiro”, “eu sou feia.”, “estragaram o meu!”, choros, vontades, prazer no acontecimento, na ação, naquilo que surgia como que urgente, o que era necessário ser feito. E eu quase não conseguia nem olhar para o Fabio e estava ali com as crianças, ouvindo, ajudando, tentando entender, buscando, pedindo, chamando... e no final, Raíssa olhando bem séria para mim perguntou: “e aí professora, gostou da nossa turma?”, a sala toda virada em cores, do avesso. Respondi: “é, não foi muito fácil hoje. mas acho que gosto de vocês.”.
No dia seguinte, quarta-feira, depois do turbilhão do dia anterior, não sentia dificuldade em estar com aquelas crianças que acabava de conhecer, me senti acolhida pela equipe e por ambas as turmas.
De manhã depois de nos apresentarmos, com contações de histórias e instrumentos para se criar com as narrativas, Gabrielle (11 anos) ao fim do encontro me passou a letra e a música de funk que seu irmão Gustavo compôs (da turma de quarta-feira à tarde do PIÁ que logo iria conhecer):

“E eu Gustavo, ‘gora’ não gosto mais
Moro no Sapopemba
com minha mãe e com meu pai

E eu Gustavo, ‘gora’ não gosto mais
Moro no Sapopemba
quebrada zica demais

A vida é dura
só pra quem é mole
mas quem não tem medo, é
não se encolhe

Acreditar
e nunca desistir
Grite forte, cante alto
para todo mundo ouvir”

MC_GTO (Gustavo, 10 anos)

Anotei a letra no meu caderninho e ela me passou a coreografia que havia criado com a ex-AE Martina para que eu aprendesse, além de sugerir instrumentos musicais para variar o estilo do funk. Foi surpreendente.
À tarde embarcamos no faz-de-conta com brincadeiras de teatro, mímica e improvisação (inspirações do Théâtre du Soleil de Mnouchkine e a lembrança comum a nós AEs de Jean-Jacques Lemêtre o qual conhecemos em cursos, em lugares e momentos diferentes: eu em Curitiba e Fabio em São Paulo). Abrimos cortinas pesadas, tocamos instrumentos invisíveis, pegamos voos turbulentos, visitamos festas e casamentos, muita dança, trânsito, diferentes cenários e figurinos.

PIÁ – Seis meses de atos, depoimentos, manifestos, exposições, danças, cenas, clímax vários, sem desenlace, sem desfecho. Abrem-se cortinas, paredes, olhares, pensamentos, falas, possibilidades...
Grupo II[3] – Aventureiros, inventores e contadores de histórias
(Turma de quarta-feira de manhã)
O cenário se compõe através de figuras geométricas: triângulos, retângulos, círculos, semicírculos e pintinhas em várias cores: azul, laranja, rosa, verde, roxo, amarelo... Combinamos essas figuras que vão sendo criadas, deslocadas, sobrepostas. Chama-se a isto Trocoscópio[4] e entendemos seu sentido pela história que vai sendo contada, recontada, modificada e pelo “trocoscoPIÁ” - o ato de recortarmos em e.v.a. nossas próprias figuras e com elas construirmos histórias paralelas, que se entrecruzam e estão abertas a subtrairmos, adicionarmos, desconstruirmos e construirmos peças, revelando diversos caminhos e sentidos.
Na floresta as lambisgoias despertam, depois ouvimos as tribos tocando chocalho, afoxé, apitos, máquina de trovão. Contamos histórias da mata, do sol, da lua, do rio com os sons. Às vezes mexendo e remexendo o esqueleto partimos para a escuridão da noite, e os contos de terror erguem-se das catacumbas.
Em algumas manhãs bolinhas invisíveis visitam e passeiam por nossos corpinhos. Às vezes estão leves e nos fazem levitar, outras vezes pesam muito e temos que fazer muito esforço para nos sustentar ou então aproveitamos a gravidade para quedas divertidas e derramamentos pelo chão.
Criamos trajetórias pelo CEU com fita crepe, pedaços de madeira, pedras, tijolos. Passar por elas não é tão fácil para pessoas comuns, mas para aventureiros corajosos, saltadores a distância, voadores, corredores, rastejadores, é “supimpa”.
Deixamos impressões por onde passamos. Carimbamos, no chão, partes do corpo: ora mão, ora cotovelo, ora topo da cabeça, orelha, coluna, ombros... E dançamos como sapos, cobras, cachorros, macacos, onças bravas, aranhas... Multiplicamos nossos apoios, ou nos equilibramos em um, aceleramos e desaceleramos. Transformamo-nos em bonecos de pano, de lata, de barro. Pulamos fogueiras, aumentamos o fogo.
Surge um livro de caixinhas. Construímos cabeças de caixinhas, abrimos para ver se tem algo dentro delas: imaginação. Criamos outras partes do corpo, encaixamos e desencaixamos: o pé ocupa o lugar da orelha, o nariz da boca, as mãos das pernas e por aí vai!
Não podemos esquecer-nos dos diferentes tipos de tesouros que foram enterrados, escondidos pelo CEU. A constante saga de esconder e achar; se perder, se encontrar; cuidar do que é precioso; confiar; cavar buracos juntos; fazer o rito da terra, água, ar e fogo; colher flores em agradecimento; acreditar que o segredo está guardado.

Grupo III – Queremos fazer teatro e... Protesto!
(turma de quarta-feira à tarde)
“Nós queremos apresentar uma peça!”
“Nós queremos fazer teatro!”
Vontade coletiva de montagem, criação de cenas, improvisação. Descobrimos o teatro através da música, da dança, da criação visual, estética, da literatura, e do próprio teatro. Uma frase no jogo como estímulo-resposta desencadeia diferentes maneiras de se ouvir e falar, ao repeti-la. Instrumentos percussivos modificam o ritmo das narrativas. As narrativas são corporais. E os corpos são brincantes, poéticos, revolucionários!
Um momento para um manifesto: escolha do grupo em vestir a máscara que cada um fez para seu personagem e sair pelo CEU gritando “PROTESTO! PROTESTO!”. As máscaras são feitas de sacos de pão (doados pela padaria próxima ao CEU e à Avenida Sapopemba) e transformadas, desenhadas, coladas, pintadas, cada qual inspirada nos personagens experenciados por cada um.
Depois das improvisações conversamos sobre o que emergiu, o que sentimos, o que achamos que pode melhorar. Um por vez se coloca para falar na roda. Aprendemos a ouvir, esperar, controlar ansiedade, respeitar. Como construímos um diálogo? Como ampliamos a escuta do grupo?
Mergulhamos fundo e nos damos conta que podemos nos tornar um cardume, um corpo só que realiza algumas ações no espaço. Ampliamos nossa consciência de grupo, de tempo, de seguir o fluxo, permanecer no fluxo, ser fluxo.
Desdobramentos teatrais (quem são os personagens, quando acontece, onde acontece, como acontece): teatro de bonecos em caixa de teatro feita de papelão; personagens com máscaras e o foco está nos corpos os quais se apresentam sem a expressão facial e sem fala; múltiplos ambientes e cenários para que os personagens se abram para diferentes sensações: estar numa festa, no meio de uma onda, no deserto, debaixo da terra, na via láctea, dentro da barriga da mãe, entre outros lugares; desfile dos personagens estimulado por uma ficha descritiva (escrita e desenhada) sobre as características de cada um: nome, que comida mais gosta, do que tem medo, onde nasceu, manias, poderes e outros; inspirações em soundpainting[5] ; construção de roteiros, brincando com diálogos que começam sua frase e seguem em ordem alfabética - memorizá-los e / ou improvisá-los em um grupo enquanto o outro assiste e depois trocar; teatro do “congela”, e quem assiste aponta magicamente para o grupo que entra em ação de acordo com a vontade do participante/plateia; teatro do caos; teatro do absurdo; teatro do grito; teatro que é troca, experiência propositiva e acolhedora.
Referências que emocionaram e estimularam o Grupo III: Grupo Galpão, Teatro de Sombras Attraction, e Peeping Tom!
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Grupo IV – Arte “compentorânea”[6], muita poesia!
(turma de quinta-feira de manhã)
Um grupo pequeno. Eram cinco: Ana Júlia, Ellen, Amanda, Mike, Thainá, sendo estes três últimos irmãos. Depois eram três: Ana Júlia, Ellen e seu primo João. Entraram as irmãs Francielle e Kamily, voltava a ser cinco; saem Ellen e João, entra Isabellie. E por fim são quatro: Ana Júlia, Francielle, Kamily e Isabellie.
Diferente das outras turmas que são maiores, com este grupo há mais silêncio, desdobramento de uma mesma coisa, tema, poema. Há um tempo que se esgaça e se engraça. Somos parceiros, estamos muito próximos e somos todos muito propositivos, criativos, inquietos.
Dançamos de olhos abertos e fechados. Compartilhamos sensações. Dançamos a dois: um da dupla com um leque simula sopros, ventos, ventanias, vendavais e o outro recebe às escuras em diferentes partes do corpo do ar que se move ao redor e faz mover os corpos. Improvisações com tambor acelerando o ritmo sanguíneo. Queremos saber o que tem dentro do corpo. Tocamo-nos, dos pés à cabeça, localizando ossos, órgãos, cartilagens, nervos, músculos, gordura, pele. Surpresas, cosquinhas, estranhamentos, revelações. Procuramos livros de anatomia na biblioteca, queremos mais imagens de como é/pode ser por dentro. Construímos imagens também através do toque e troca de fluxos. De olhos fechados desenhamos sem tirar o lápis do papel, com pausas que se estabelecem no grupo. Cada pausa, um ponto de lápis no papel... Abrimos os olhos e observamos os traços, os pontos, como ocupamos o papel, o espaço, como extrapolamos o limite da folha, como ficamos centralizados e possíveis ligações que podemos fazer. Ligamos os pontos e surgem figuras. Abstrações que se concretizam em formas conhecidas. Formas que se acham tão conhecidas, mas que muito se tem ainda para descobrir.
O outro lado[7]: nome do livro que a AE Marília compartilha conosco. Brincamos a partir dele com a relação perto – longe, onde nosso olhar se aproxima e se afasta. Usamos lupa, binóculos, venda, espelho. Olhamos plantinhas de perto, observamos os desenhos em suas folhas. Avançamos até o ponto mais alto do CEU, subindo o barranco, para perceber o que há de mais longe, horizontal, vertical, transversal. Olhamo-nos, nos reconhecemos no outro. Escolhemos alguém para uma caminhada dançante e temos que nos aproximar ao máximo do escolhido e depois distanciar ao máximo espacialmente. “Tarefas” em grupo que não são feitas para se estabilizarem e sim, para uma constante busca. O grupo se modifica, transforma-se. Não pára de se mover, de propor tentativas para manter a regra, mesmo sabendo esta ser impossível se for levada ao pé da letra.
E por falar em letra... PIAnenses como nos identificamos nesse grupo, as crianças compuseram um trecho de uma letra para cantar (uma paródia de Asa Branca para o PIÁ): “Você sabe o que é o PIÁ? Vou lhe dar uma explicação: é tudo aquilo que vem do povo e nasce livre do coração.”
Manoel de Barros, Arnaldo Antunes “As Coisas”, Mário Quintana, Drummond... Lemos, relemos, sorteamos frases, palavras, construímos, adicionando-sobrepondo-combinando versos, nossas próprias poesias PIÁ-dadá:

A gente devia acreditar
Só deveria haver escolas para meninos-poetas
Soltos no ar

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Mulheres perdem o equilíbrio
E o vento é perigoso
A espiritualidade é verdade
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O que é poesia?
As crianças respondem: “verbos, palavras que rimam, mais ou menos românticas.”
O que é romântico?
As crianças respondem: “meigo, feminino...”
O que seria masculino?
...
O que se precisa para se fazer poesia?
As crianças respondem: “palavras que são iguais no início e no fim; não precisa ter rima, mas tem que ter sentido; não precisa ser romântica, pode ser comédia ou de terror; versos, estrofes, aspas... Imaginação, letras.”.
E letras formam o que?
As crianças respondem:
“um desenho”
“uma palavra”

Poesia pode ser imagem e/ou palavra. Escolhemos palavras distraídas, agitadas, longas, gordas, dorminhocas para compor frases / desenhos. Criamos coletivamente. As palavras são escritas em papéis picados. Guardamos as palavras na caixinha do PIÁ, lá elas se namoram, estranham-se, embaralham-se, afastam-se e se reencontram... Com tantas inspirações criamos diferentes livros e monotipias! Ao som de jazz, baião, João Bosco ou Arnaldo Antunes, cantamos enquanto recortamos, desenhamos, pintamos... Uma pausa para uma dança. Voltamos e continuamos a buscar outras palavras, descolá-las das páginas dos livros e com elas viajar e nos encontramos inusitadamente pequenos poetas!

A sombra de um Disco Voador
A casa está morta
Dou um pulo
Não: a casa é um fantasma
Eu subo em árvores
Mas com uma chaminé em cima
A casa está sonhando
Ela pára no ar

---


Grupo I – “...vem me dê a mão / a gente agora já não tinha medo”[8]
(turma de terça-feira de manhã – CCA Guadalupe)
Do fim ao princípio. Cenas selvagens, catastróficas, quase apoteóticas. O caos é a lama e a lama, o caos. A organização só para desorganizar. Os órgãos estão expostos e gritam. Corremos, fugimos, nos escondemos, usamos cordas e pulamos cada vez mais alto e caímos e somos bons na queda. Enfrentamos a inércia, nos protegemos, tentamos diálogos mesmo sabendo haver tantas línguas e talvez nenhuma servir. Um abraço de urso bem forte. Onde podemos ser intensos sem machucar? Como estar perto sem ferir o outro? Como amar na ausência? O intervalo de um tempo verbal pretérito imperfeito evocando o agora.
Por ser agora, por ser urgente. Palavras, palavrões do tamanho do desejo de serem ouvidas, compreendidas, acolhidas. Muitas pessoas nas ruas olham com repressão. As crianças não se intimidam. Cantam funk pornográfico em grupo, gritam, arrancam flyers de postes, catam coisas no chão, acumulam essas coisas e competem para ver quem possui mais tralha. Olham as vitrines com tênis, roupas, joias. Dizem possuir esses produtos ou que futuramente vão ganhar no Natal. Brigam, machucam-se, fazem-se chantagens violentas. A regra é para ser quebrada. O que já está dado é para ser disputado e/ou destruído.

Como nos conquistamos? Como nos confiamos? Como perceber que não há autoritarismo no PIÁ? Como acreditar que não vamos desprezá-los, inferioriza-los, humilhá-los?
(pausa)
As terças-feiras eram esperadas com uma energia “samurai”, atenção voraz. Nossas propostas dificilmente eram aceitas e o que as crianças propunham entre elas também não era respeitado. Espera e escuta. Uma canção com três crianças, uma improvisação de movimentos com quatro, ou duas... Parecia difícil avançar.
A Boneca Dinorá (nome dado pelo grupo, para uma performance que fiz juntamente com o AE Fabio o qual me apresentava e eu era uma boneca marionete) foi uma passagem que marcou profundamente a todos, acredito. No teatro do CEU eu, já vivendo a boneca marionete com figurino e maquiagem cobrindo todo o meu corpo, me escondi e comecei a pedir socorro porque estava presa, de brincadeira, em um nicho da coxia. As crianças exaltadas corriam, gritavam. Não sabiam o que fazer com aquela situação. Comecei a caminhar com passos largos de boneca e elas se agitaram ainda mais. Pareciam não saber agir diante daquela estranha boneca. Uns se assustavam, não me reconheciam, outros ficavam me puxando para brincar de pega-pega e outros queriam lutar comigo. Corporalmente de várias maneiras tentei propor danças, mímica, diálogo. Tentei suavizar, demonstrar meu carinho, e o Fabio me ajudou musicalmente para um momento de brincar no palco. Mas tudo foi ficando cada vez mais violento... Arrancaram-me parte da luva, arrancaram pedaço do sapato, me empurraram, me chutaram, me machucaram. Pedia na “voz da boneca” para que parassem e eles não paravam. Deixei-me chegar ao limite, ao meu esgotamento. Sentei e chorei verdadeiramente. Pouco a pouco algumas crianças começaram a se aproximar, querer me ajudar, falar para eu não ficar triste, me dar carinho, me entregar pedrinhas como presente, até por fim, juntamente com o Fabio, algumas tocaram instrumentos musicais para incentivar que a boneca voltasse a dançar. Aos poucos, me senti fortalecida com o apoio delas e dançamos juntos. Já estava na hora de finalizar o encontro do dia. Eu estava muito mexida com tudo o que aconteceu. Nunca tinha vivido situação semelhante. Era hora de parar, repensar os encontros, repensar minhas expectativas e limites. Perceber as diferenças como potência de mover, de transgredir.
Passado esse episódio, conversamos em equipe e decidimos dividir as crianças em dois grupos (9 crianças em cada grupo): Grupo 1 com crianças de 5 a 7 anos e o Grupo 2 com crianças de 8 a 10 anos. Cada semana passamos a levar um grupo para o CEU, encontrando, assim, cada grupo quinzenalmente. Desde então, pela nossa “lei”, a gente era obrigado a ser feliz.
Brincamos de cowboy, rei, princesa, juiz e tantos outros. Criamos, por meio de jogos, maneiras de modificar o espaço e as relações de acordo com as pessoas que passavam pelo CEU, com proposições que disparavam ações coletivas. Apresentamos espontaneamente uma peça de teatro improvisada para crianças de três a quatro anos, através do desfile de personagens fantásticos. Exploramos o CEU, as fronteiras, as distâncias. Encontramos o barranco e foram muitos rolamentos das alturas, escorregadelas, escorregões... Um ajudando o outro para subir e descer. Coletamos flores, folhas secas, galhos e sementes para compor quadros vivos, hortas, esculturas! Um brinquedo sonoro! Encontramos um tesouro de argila para criar as nossas preciosidades. E chegamos muito perto e ficamos muito juntinhos para ouvir histórias dos monstros, um livro.
Depois de muito perguntarem sobre a Boneca Dinorá, “como ela está?” “ela vai voltar?”, “a boneca era você, tia?” combinei com o Fabio e fizemos um encontro no CCA com todas as crianças onde Dinorá apareceu e explicou que precisou ir à costureira e ao médico para se recuperar de toda aquela confusão, mas que estava de volta para contar umas histórias engraçadas de uma menina que ela conheceu - Josete[9], para cantar e dançar. Todos ouviram as histórias com os olhinhos vivos, curiosos, que se divertiam. Dançamos juntos uma dança maluca. Cantamos juntos, Fabio no pandeiro, o Funk do PIÁ - letra das crianças do CCA em parceria com o Gustavo da turma de quarta-feira:

'É o funk! É o funk!
É o funk do PIÁ
Quando toca esse funk
todo mundo quer dançar

A vida é dura só pra quem é mole
Mas quem não tem medo é,
não se encolhe

Acreditar e nunca desistir
Grite forte, cante alto
para todo mundo ouvir!...”

Dionorá se despediu: viajou para Romênia. Enviou uma carta contando suas aventuras por lá. Teve sonhos com eles... Eu tenho sonhos (muitos!) com essas crianças, diariamente. Tomando banho, de repente, desatino a chorar. Sei que os amo profundamente. Incrível a confiança, o carinho que conquistamos entre nós! Como nos transformamos! Por ser intenso, avassalador, a gente agora já não tinha medo.



Falso Epílogo – termina, mas não acaba. Rastros poéticos...
É estranho interromper um processo que começa a se aprofundar, se afinar nas relações entre equipe, turmas, crianças, funcionários, pais, parceiros, o próprio espaço do CEU. Sinto-me num trânsito, nem ir, nem vir, mas entre (entre-territórios, entre culturas, entre valores, entre verbos). Entre o Centro e Sapopemba, entre o CEU e o CCA, entre as salas barulhentas onde escutamos os sons que reverberam do ginásio e o espaço ao ar livre, mas que não é tão livre, entre a gestão e os pais, entre a alegria que se descobre no presente e o rompimento do Programa, à espera do amanhã, das “águas de março”, sob incertezas.
Penso que experiências abertas com as crianças são importantes para a nossa humanização. No PIÁ as crianças se deparam com a experiência do corpo num tempo-espaço que se alarga - a descoberta do sensível - através de trocas e provocações na convivência. Ampliamos a percepção nos processos criativos. Sinto-me assim como artista-educadora. Nos grupos que integro: [-MOS] (dança), COMO clube (performance) e Teatro de Transeuntes procuro me posicionar de maneira aberta para o mundo, onde sou capaz de expandir, de pensar outras possíveis realidades e histórias na relação indivíduo – coletivo. Desse modo somos impulsionados a nos relacionarmos com o mundo como seres de intervenção, de transgressão. O exercício do diálogo, entre as pessoas, ideias e linguagens artísticas, proporciona o aprendizado da escuta, através do qual reconheço o outro como sujeito - não o discrimino - estou aberta e disponível a aprender com ele.
A arte coincide com a vida desde que a vida seja uma vida intensa, que se desdobra, mais que isso, atua com as coisas que nos atravessam. 





[1] AE = Artista-educador
[2] Centro para Criança e Adolescente Nossa Senhora de Guadalupe
[3] O Grupo I (turma de terça-feira se encontra depois do Grupo IV, por uma escolha da sequência dos acontecimentos e percepções que desejo falar).
[4] Livro da Editora Tangerina, autor Bernardo P. Carvalho.
[5] Soundpainting é uma língua de sinais para direção de composição ao vivo. Foi criado em 1974 pelo compositor Walter Thompson (New York) para músicos, bailarinos, atores, poetas, artistas visuais.
[6] Ana Júlia tentando lembrar o nome do museu que visitamos (na Ação Cultural do PIÁ) falou: “Museu de Arte Compentorânea” e o grupo todo consentiu.
[7] Texto e ilustração do húngaro Istvan Banyai, editora Cosac Naify.
[8] Trecho da letra João e Maria de Chico Buarque.
[9] Apresentei a contação de história do livro Contos de Ionesco para Crianças, de Eugène Ionesco.  

sobre espaços e lugares

 Fomos com as crianças ao MAC (Museu de Arte Contemporânea) e para o Parque do Ibirapuera. O ônibus atrasou 50 minutos para chegar no CEU e a essa altura já considerávamos um plano B para tentar lidar com tantas frustrações vestidas para passear. Quando chegou, éramos um bolo transbordante de ansiedade. Um percurso longo, mas com a sensação de que estar a caminho continua sendo mesmo sempre a melhor parte: os motoristas e motoqueiros que vem atrás e respondem aos acenos, os novos hits de sucesso que entoam num coro de vozeszinhas estridentes, a expectativa de chegar logo misturada com a vontade de que demore, que dure, que não acabe.
Gosto de observar as mudanças da paisagem ao longo desses percursos. Sair de Sapopemba, chegar no Ibirapuera. De lá pra cá, diminui consideravelmente o número de farmácias, de lojas de plástico a partir de R$1,99 ou de roupas com araras na calçada, casas só no reboco, calçadas quebradas, fios. Tentei chamar atenção para os grafites na 23 de Maio, mas não obtive muito sucesso. A Thifanny me fez notar num canteiro em obras: por que eles tiram a grama para depois plantar mais grama?
           Chegamos ao museu.
Eu, que trabalhei em várias exposições como educadora, dessa que recebe o grupo por pouco mais de uma hora, conversa, olha, pede para não tocar e vai embora, estava numa expectativa grande de estar do outro lado, em ser a pessoa que leva o grupo ao invés da que o recebe.
Descemos do ônibus. As crianças estavam em polvorosa.
Nos dividimos em pequenos grupos para conversar antes de entrar no museu. Fiquei com a turma do fundão, os mais velhos e impacientes. Eu achava importante que todos soubessem onde estávamos, o que faríamos e veríamos ali, como funciona aquele lugar. Trabalhar em museus e espaços expositivos me fez adquirir certa aversão a esses espaços e uma necessidade de sempre chamar a atenção para sua arquitetura, sua lógica disciplinar e apartada do mundo, assegurando o bem estar daquilo que já foi legitimado como arte dentro das paredes brancas. Eu espero pelo desconforto dos corpos que não foram constrangidos a esses lugares de bons modos e etiquetas e classe, porque não é raro esse desconforto vir. Eu sinto nesse desconforto, que antes de tudo é meu, a diferença do desconforto do corpo constrangido pela arquitetura escolar, do corpo que se adequa aos ruídos e a falta de espaços num lugar de grandes dimensões como o CEU, do corpo sempre de passagem sem pedir licença
.
- A gente já sabe: na pode por a mão, não pode comer, não pode respirar.

[NÃO PODE RESPIRAR] 

           - Vocês sabem o que é arte contemporânea?
           - Por que a gente não entra logo e descobre? Me respondeu a Natália, certamente mais impaciente com a conversa enquanto as paredes de vidro já denunciavam o que nos aguardava do lado de dentro do museu, do que de fato querendo saber o que era a tal da  arte contemporânea. O que talvez pudesse ser a mesma coisa…

           TRANSARQUITETÔNICA
A obra do Henrique Oliveira, que ocupa um andar inteiro do prédio do MAC, é uma construção, um labirinto que contorna as pilastras do prédio e começa (ou termina, depende do ponto de vista) com paredes de alvenaria, pintadas de branco (e se confundem com as do museu) e depois ficam só no reboco, tijolos, madeira até chegar nos troncos de árvore na saída da outra extremidade. Aquilo pra mim poderia ser aquele percurso de Sapopemba até o museu. Das raízes até as paredes brancas ensimesmadas, geladas.
Lá dentro esqueci um pouco que estava num museu cercada por tais paredes. Se eu esqueci, acho que as crianças sequer lembraram. Gritos e correria. Se perder para se encontrar e perder de novo. A graça de nunca chegar. Descobertas. O corpo sujeito pelo teto baixo, o corpo sujeito pelas formas propostas e impostas pela arquitetura. Lá dentro era muito quente e faltava um pouco de ar.

   - Se fosse uma casa, quem moraria aqui? ou ali?
   - Aqui mora índio, ali mora gente...
   - Mas índio não é gente?

          Entrar e sair até aprender todos os caminhos. Só mais uma vez. E mais uma. À exaustão.

Nos reunimos do lado de fora da obra. Algumas crianças deitaram no chão do museu para descansar de toda agitação. Os seguranças reforçaram o estado de alerta em que se colocaram desde que chegamos, mas nada disseram.
Ao vê-los ali deitados no chão do museu, entendi que aquela vivência tinha proporcionado a eles uma outra forma de se relacionar com aquele espaço normalmente ostensivo, "silencioso", "quieto" e repressor. Uma experiência diferente das tantas que tive como educadora e como visitante, com as quais me habituei aos "nãos" em primeiro lugar.


Podia respirar mesmo faltando um pouco de ar lá dentro.
Lembrei que enquanto planejávamos o passeio, a Aninha (7 anos) disse que queria ir a um lugar que fosse livre. Será que aquele foi um lugar de liberdade para
ela? Será que foi para mim?
Acredito que essa obra ocupe a lógica museológica de forma a transformá-la em algo que precisa ser explorado, preenchido e não só observado de longe. Desde então tenho pensado nas condições que os "nossos" espaços impõem aos nossos corpos e como respondemos a eles. Volto ao pertencimento, mas agora pensando em tudo o que fizemos para caber nesse espaço que nos diz respeito (o CEU), mas que constantemente nos expulsou com seus ruídos altíssimos, sua falta de sombra, de piso confortável para sentarmos no frio, as distâncias infinitas entre os prédios que compõem todo o equipamento CEU. Penso que lá em Sapopemba não estamos fora da lógica da nossa cidade que constrói as pessoas para seus espaços e não o contrário. Uma lógica que privilegia a máquina, a passagem, o isolamento. As pessoas que frequentam o CEU puxam os bancos pra conversar, estão ali diariamente usando seus espaços, mas ele permanece seco, hostil e barulhento.
Uma das definições de lugar no Dicionário Michaellis é “espaço ocupado por um corpo”. Seria o CEU um lugar? Um lugar desses que pede para ser preenchido e explorado, ocupado pelas pessoas a seu modo? Será que mesmo a despeito da hostilidade arquitetada, as crianças conseguem deitar (e rolar) no chão e tomar esse espaço pra si e nos ensinar a fazer isso também, mesmo que “apesar de…”? Acho importante acreditarmos e sabermos que sim, mas sem esquecermos que não precisamos tirar a grama para por mais grama.
Ainda sobre nossa visita ao MAC, depois nos reunimos novamente com nossos grupos, eu com a "turma do fundão". Novamente eles não estavam muito pra papo, queriam correr ou comer, mas consegui perguntar se tinham descoberto o que era então a arte contemporânea:
         - Uma arte que mistura tudo, porque aí tinha pintura, escultura e a gente podia entrar dentro. Foi a resposta que a Pamela me deu.
As coisas que a gente pode perceber com o corpo, não só pela palavra: que o espaço que nosso corpo ocupa pode ser um lugar que nos dá mais espaço para o corpo perceber o que pode ser. E que pode ser mais.



[do oitavo andar do MAC, a vista panorâmica de um lado da cidade]




marília carvalho
ceu sapopemba