Mostrando postagens com marcador artes visuais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artes visuais. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Impérios e domínios - Aquele que ostenta a posse possui ou é possuído?



Impérios e domínios

Aquele que ostenta a posse possui ou é possuído?



Significados e graus de importância...

Embalagens, rótulos, etiquetas...

Sabor artificial idêntico ao natural, acidulante ácido fumárico, aromatizantes, estabilizantes, corantes artificiais tartrazina, amarelo crepúsculo, azul brilhante FCF, vemelho 40 e eritrozina.

Frozen, Ben 10, As Super Poderosas, Bob Esponja, Power Rangers, Mikey, Barbie...


Não sei exatamente em que ponto da história (minha história) comecei a construir uma aversão crescente ao “cor-de-rosa” estendida também à “Barbie”, a boneca, e todos os seus aparatos, acessórios, complementos, etc.


Voltando à infância, há mais de quarenta anos atrás, considerando que hoje estou com 49, quando tinha por volta de 5/6 anos, nos anos 1970... lugar onde frequentemente visito/recorro para auxiliar minha prática artístico pedagógica, pesco experiências que provocaram sensações significativas, desde a alegria, a euforia, o encantamento, raiva... até a tristeza, o pavor, medo... e parto, rumo ao encontro daquele que esboça uma expressão que me remete àquilo que vivi há tempos. Pondero, espio, sinto e elaboro, chego perto e, com empatia, formulo alguma pergunta desprovida de juízo de valor.


Sei que minhas irmãs (duas, uma de 1 ano mais velha e outra de 3 anos mais nova) tinham predileções e desejos praticamente iguais entre si e que eu, pretendendo (?) não ser igual a elas, optava por escolhas contrárias, muitas vezes, radicalmente opostas. Nesta empreitada (birra), tive que desviar o olhar para o “outro lado”, mudei os motivos, o foco e nesse exercício/pesquisa de criança, acabei encontrando possibilidades inusitadas e interessantes, adotei outros caminhos/brinquedos dos quais acabei fazendo muito gosto.

Também me recordo vagamente de algumas situações em que algumas meninas (colegas) mostravam (ostentavam) suas conquistas (presentes de aniversário, dia das crianças, natal), bonecas envoltas em parafernálias cor-de-rosa, banheiros, banheiras, biombos, carros, camas, guarda-roupas, poltronas, etc. Será que minha repulsa teve origem aí, numa ponta de inveja? Não sei.

Minha família é de origem humilde e nem podíamos sonhar com produtos muito sofisticados (caros), morávamos em um loteamento periférico de São Paulo, na Zona Leste, ainda quase sem casas construídas, onde as ruas eram de terra e o mato dos terrenos vizinhos, cenário para um infinito de aventuras. Mas éramos as únicas sobrinhas de um conjunto de 6 tias solteiras, cheias de vontade de nos agradar, de onde vinham muitos presentes/brinquedos.

...

Não me lembro exatamente da Barbie em minha infância, minha irmã mais velha tinha conseguido ganhar uma Susi, uma boneca similar. Tanto uma quanto a outra, juntas com seus aparatos, estavam fora de cogitação, não sei o grau de frustação que isto pode ter causado, mas tínhamos tantas opções no quintal (de terra), brincávamos tanto... Isso não ocupou muito espaço em nossas vidas, acho.


A fixação por produtos cujo mote seja um personagem de filme de animação também me provoca sensação parecida ao que me provoca o “cor-de-rosa” e a “Barbie”, uma repulsa involuntária, crônica.

Não se trata de ser contra a escolha de heróis, ídolos e referências, mas de eu não conseguir ficar alheia à obsessão ao consumo provocada pelos apelos afetivos plantados pelo marketing por meio destes personagens.


Ao trabalhar com crianças, me pergunto constantemente em como lidar com esta sensação que me invade, uma vez que a presença destes personagens é constante, tanto nas embalagens das guloseimas que as crianças trazem para o lanche, quanto em suas falas, nas brincadeiras e nos próprios brinquedos que eventualmente trazem para mostrar.

Há muitos momentos em que as crianças entram em ferrenha disputa, mencionando os brinquedos que possuem, sempre associados a personagens de filme de animação.


Nesses momentos a repulsa brota em mim e tento encontrar caminhos de escape para lidar com a situação. Na maioria das vezes procuro mudar de assunto, desvio a atenção e busco outros recursos, outras brincadeiras, outros atrativos, o que geralmente funciona, mas não é sempre e mesmo quando consigo pode retornar. O império do marketing não é um monstro que desiste fácil, é poderoso e devastador.

O afeto é o solvente utilizado no processo de fixação, uma armadilha complexa e sedutora que envolve não só a criança, mas todos que a ela estão ligados afetivamente. Fica difícil encarar esta briga, é mais ou menos como se eu estivesse contra o amor, quando é justamente o contrário. É assim que sinto.

Dizer que não gosto de cor-de-rosa é quase uma afronta para muita gente. Da mesma forma, dizer que não gosto da Xuxa e de todos os produtos que ela lança no mercado pode ser considerado uma heresia. Por sinal, produtos geralmente caros e de pouca qualidade, frágeis, perecíveis e pouco educativos. Crio antipatia e perco a possibilidade de discussão.


Entre tantas situações que surgem no cotidiano onde esta minha repulsa se manifesta... eis que um dia uma menina de 8 anos entra com sua amiga, como se estivesse carregando a coisa mais preciosa do mundo, trazendo uma máquina registradora de plástico cor-de-rosa, da Barbie.

Eu olhei para o objeto enquanto ela mostrava orgulhosa o seu funcionamento. Ouvia sem ouvir, buscando algum recurso em meus arquivos de memória, pensando no que fazer?

Eu não queria dizer o que pensava e o que sentia em relação ao brinquedo e no instante que pareceu eterno, uma imagem brotou da memória, lembrei-me da brincadeira de “vendinha” que eventualmente fazíamos, eu e minhas irmãs: Juntávamos revistas em quadrinho e outras coisinhas, pequenos brinquedos, e aquilo virava uma banca de jornal ou barraca de feira, loja... Era uma brincadeira muito divertida e quando consegui acessar a sensação de prazer e imaginar a possibilidade de ter uma máquina registradora como aquela naquele tempo... foi revelador, pois percebi o quanto seria incrível!


A partir daí, a sensação de repulsa cedeu lugar à sensação de prazer e entre o universo da menina e o meu aconteceu uma conexão, consegui formular perguntas sobre o funcionamento da máquina com real interesse, vibrando com as possibilidades e, ao mesmo tempo, ainda ruminando a contraditória repulsa pelo objeto cor-de-rosa da Barbie, objeto estimulador do consumo, etc., etc. que inclusive trazia cartões com imagens de produtos a serem comprados e dinheirinho para a efetivação das compras.

Estávamos numa biblioteca temática de contos de fadas, cheia de livros que adoro e que ambas, a menina e sua amiga, também demonstravam grande interesse.

A partir daí, com os sensores ligados a mil, pude pensar em uma utilidade para o brinquedo “nefasto” que trazia consigo um dispositivo imitando um leitor de código de barras que apresentava o valor do objeto (cartões) em que era tocado, valores aleatórios.

A ideia inicial seria que cada criança pesquisasse, “comprasse de brincadeirinha”, 5 livros que interessasse pelo título e/ou pela imagem. Escolhidos os livros, o de maior valor registrado pelo “leitor de código de barra” seria lido pelo “comprador”.

Esquecer os cartões do brinquedo não agradou imediatamente, mas toparam. No entanto, a outra educadora, Marcela, também incomodada com a presença “Barbie” nas notas dos dinheirinhos, propôs que fabricássemos nossos próprios dinheiros, inventando outros valores.

Essa ideia pereceu agradar menos ainda, pois retardaria “as compras”, no entanto, cederam e com materiais diversos, canetas lápis coloridos, carimbos, as notas foram ganhando desenhos variados e valores inusitados. O tempo perdeu a sua dimensão diante do prazer da brincadeira, da criação, passou.

O objeto que era centro das atenções tornou-se coadjuvante, quase foi esquecido.


Não há uma conclusão fechada, é constante a reflexão e as especulações em torno de fatos relacionados ao estímulo ao consumo, à disputa, ao individualismo e às novas formas de brincar da sociedade atual.

Assim como é possível resinificar um objeto qualquer “sem valor”, como uma lata, um pote plástico ou uma tampa, que podem se converter em monstro ou herói, assim como uma cadeira pode virar montanha ou túnel, mesmo um brinquedo “nefasto”, produto e fomentador de consumo, também pode ganhar outras formas de utilização.

O desafio é constante e requer atenção.

A resistência para ganhar sentido e espaço, também precisa acionar a flexibilidade e o acolhimento, mesmo que no primeiro momento a razão diga o contrário.

É preciso ter empatia.




Samara Costa

Artista educadora Artes Visuais - Biblioteca Hans Christian Andersen - 2014

sobre espaços e lugares

 Fomos com as crianças ao MAC (Museu de Arte Contemporânea) e para o Parque do Ibirapuera. O ônibus atrasou 50 minutos para chegar no CEU e a essa altura já considerávamos um plano B para tentar lidar com tantas frustrações vestidas para passear. Quando chegou, éramos um bolo transbordante de ansiedade. Um percurso longo, mas com a sensação de que estar a caminho continua sendo mesmo sempre a melhor parte: os motoristas e motoqueiros que vem atrás e respondem aos acenos, os novos hits de sucesso que entoam num coro de vozeszinhas estridentes, a expectativa de chegar logo misturada com a vontade de que demore, que dure, que não acabe.
Gosto de observar as mudanças da paisagem ao longo desses percursos. Sair de Sapopemba, chegar no Ibirapuera. De lá pra cá, diminui consideravelmente o número de farmácias, de lojas de plástico a partir de R$1,99 ou de roupas com araras na calçada, casas só no reboco, calçadas quebradas, fios. Tentei chamar atenção para os grafites na 23 de Maio, mas não obtive muito sucesso. A Thifanny me fez notar num canteiro em obras: por que eles tiram a grama para depois plantar mais grama?
           Chegamos ao museu.
Eu, que trabalhei em várias exposições como educadora, dessa que recebe o grupo por pouco mais de uma hora, conversa, olha, pede para não tocar e vai embora, estava numa expectativa grande de estar do outro lado, em ser a pessoa que leva o grupo ao invés da que o recebe.
Descemos do ônibus. As crianças estavam em polvorosa.
Nos dividimos em pequenos grupos para conversar antes de entrar no museu. Fiquei com a turma do fundão, os mais velhos e impacientes. Eu achava importante que todos soubessem onde estávamos, o que faríamos e veríamos ali, como funciona aquele lugar. Trabalhar em museus e espaços expositivos me fez adquirir certa aversão a esses espaços e uma necessidade de sempre chamar a atenção para sua arquitetura, sua lógica disciplinar e apartada do mundo, assegurando o bem estar daquilo que já foi legitimado como arte dentro das paredes brancas. Eu espero pelo desconforto dos corpos que não foram constrangidos a esses lugares de bons modos e etiquetas e classe, porque não é raro esse desconforto vir. Eu sinto nesse desconforto, que antes de tudo é meu, a diferença do desconforto do corpo constrangido pela arquitetura escolar, do corpo que se adequa aos ruídos e a falta de espaços num lugar de grandes dimensões como o CEU, do corpo sempre de passagem sem pedir licença
.
- A gente já sabe: na pode por a mão, não pode comer, não pode respirar.

[NÃO PODE RESPIRAR] 

           - Vocês sabem o que é arte contemporânea?
           - Por que a gente não entra logo e descobre? Me respondeu a Natália, certamente mais impaciente com a conversa enquanto as paredes de vidro já denunciavam o que nos aguardava do lado de dentro do museu, do que de fato querendo saber o que era a tal da  arte contemporânea. O que talvez pudesse ser a mesma coisa…

           TRANSARQUITETÔNICA
A obra do Henrique Oliveira, que ocupa um andar inteiro do prédio do MAC, é uma construção, um labirinto que contorna as pilastras do prédio e começa (ou termina, depende do ponto de vista) com paredes de alvenaria, pintadas de branco (e se confundem com as do museu) e depois ficam só no reboco, tijolos, madeira até chegar nos troncos de árvore na saída da outra extremidade. Aquilo pra mim poderia ser aquele percurso de Sapopemba até o museu. Das raízes até as paredes brancas ensimesmadas, geladas.
Lá dentro esqueci um pouco que estava num museu cercada por tais paredes. Se eu esqueci, acho que as crianças sequer lembraram. Gritos e correria. Se perder para se encontrar e perder de novo. A graça de nunca chegar. Descobertas. O corpo sujeito pelo teto baixo, o corpo sujeito pelas formas propostas e impostas pela arquitetura. Lá dentro era muito quente e faltava um pouco de ar.

   - Se fosse uma casa, quem moraria aqui? ou ali?
   - Aqui mora índio, ali mora gente...
   - Mas índio não é gente?

          Entrar e sair até aprender todos os caminhos. Só mais uma vez. E mais uma. À exaustão.

Nos reunimos do lado de fora da obra. Algumas crianças deitaram no chão do museu para descansar de toda agitação. Os seguranças reforçaram o estado de alerta em que se colocaram desde que chegamos, mas nada disseram.
Ao vê-los ali deitados no chão do museu, entendi que aquela vivência tinha proporcionado a eles uma outra forma de se relacionar com aquele espaço normalmente ostensivo, "silencioso", "quieto" e repressor. Uma experiência diferente das tantas que tive como educadora e como visitante, com as quais me habituei aos "nãos" em primeiro lugar.


Podia respirar mesmo faltando um pouco de ar lá dentro.
Lembrei que enquanto planejávamos o passeio, a Aninha (7 anos) disse que queria ir a um lugar que fosse livre. Será que aquele foi um lugar de liberdade para
ela? Será que foi para mim?
Acredito que essa obra ocupe a lógica museológica de forma a transformá-la em algo que precisa ser explorado, preenchido e não só observado de longe. Desde então tenho pensado nas condições que os "nossos" espaços impõem aos nossos corpos e como respondemos a eles. Volto ao pertencimento, mas agora pensando em tudo o que fizemos para caber nesse espaço que nos diz respeito (o CEU), mas que constantemente nos expulsou com seus ruídos altíssimos, sua falta de sombra, de piso confortável para sentarmos no frio, as distâncias infinitas entre os prédios que compõem todo o equipamento CEU. Penso que lá em Sapopemba não estamos fora da lógica da nossa cidade que constrói as pessoas para seus espaços e não o contrário. Uma lógica que privilegia a máquina, a passagem, o isolamento. As pessoas que frequentam o CEU puxam os bancos pra conversar, estão ali diariamente usando seus espaços, mas ele permanece seco, hostil e barulhento.
Uma das definições de lugar no Dicionário Michaellis é “espaço ocupado por um corpo”. Seria o CEU um lugar? Um lugar desses que pede para ser preenchido e explorado, ocupado pelas pessoas a seu modo? Será que mesmo a despeito da hostilidade arquitetada, as crianças conseguem deitar (e rolar) no chão e tomar esse espaço pra si e nos ensinar a fazer isso também, mesmo que “apesar de…”? Acho importante acreditarmos e sabermos que sim, mas sem esquecermos que não precisamos tirar a grama para por mais grama.
Ainda sobre nossa visita ao MAC, depois nos reunimos novamente com nossos grupos, eu com a "turma do fundão". Novamente eles não estavam muito pra papo, queriam correr ou comer, mas consegui perguntar se tinham descoberto o que era então a arte contemporânea:
         - Uma arte que mistura tudo, porque aí tinha pintura, escultura e a gente podia entrar dentro. Foi a resposta que a Pamela me deu.
As coisas que a gente pode perceber com o corpo, não só pela palavra: que o espaço que nosso corpo ocupa pode ser um lugar que nos dá mais espaço para o corpo perceber o que pode ser. E que pode ser mais.



[do oitavo andar do MAC, a vista panorâmica de um lado da cidade]




marília carvalho
ceu sapopemba

o raio do pertencimento


marília carvalho
ceu sapopemba
julho/2014