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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

esburacando começos


Talita Alcalá Vinagre
CEU Quinta do Sol

Já começou... 
Revisitar neste ensaio a memória do que foi a minha parceria entre as artistas-educadoras Fabiana Ribeiro (coord. da equipe), Sthefany Leal, Karina Nakahara com as crianças e adolescentes frequentadores do PIÁ no CEU Quinta do Sol, torna-se uma tarefa que não se remete apenas ao presente. 
Desde os primeiros encontros com os participantes do PIÁ - digo participantes, pois essa é a palavra mais ajustada para referir-me a esse conjunto (artista-educadores, crianças e adolescentes), por mais que ainda se reproduzam alguns moldes escolares na relação entre artista-educador e crianças -, a minha tentativa foi a de desconstruir esses papéis tão demarcados. Dissolver as hierarquias se tornou um desafio fundamental para que novos processos artístico-pedagógicos ali se instaurassem, exercitando um outro modo de estar junto. Modo este, muitas vezes estranho, inclusive a nós artistas-educadores, pois, querendo ou não, todos somos mais ou menos “marcados” pelas relações de mando e obediência tão arraigadas  desde cedo na relação com nossos pais e professores.  
Já no meu primeiro dia com as crianças do PIÁ comecei a elaborar um pequeno diário que registra o planejamento dos encontros, assim como o efeito deles no grupo, sob o título: o que foi? Interessante agora retomá-lo e ver que, passada uma semana, minhas anotações de preparação do encontro se voltam mais a uma tentativa de documentação do que foi possível ou do que não foi possível realizar.  Ou seja, esse diário dos encontros ganha relevância nesse momento mais pelo o que aponta de dificuldades, de supostas “falhas” e “desvios” frente às propostas que previamente elaboramos (eu e as artistas-educadoras). No entanto, ao invés de encarar isso do ponto de vista da ineficiência e/ou do erro, passei a tomar os efeitos dos encontros em suas singularidades, o que me propiciou dissolver pouco a pouco qualquer tentativa de controlar suas variáveis. Isso fez também com que minha prática artístico-pedagógica radicalmente se transformasse, assim como minha postura corporal, passando por minha respiração e fluxo de pensamentos.  
O PIÁ é o funeral dos desejos 
Ao contrário desta frase soar de modo negativo, trago ela aqui, pois me ajuda a cada dia a lidar com o poder massacrante daquilo que alguns chamam de “ego”, de “racionalidade” ou ainda “consciência”. Não me interessa, contudo, desdobrar aqui uma análise psicanalítica, tampouco filosófica sobre a atuação dessa forma tão cristalizada de separar o pensamento do corpo, a razão da emoção... Tal frase remete antes de tudo a outra que escutei várias vezes de alguns dançarinos-pesquisadores do Contato e Improvisação: “a improvisação é o funeral dos desejos”. Assim, perceber o corpo como um fenômeno rico, constante e mutável: isso é o que intuitivamente tentei processar ao longo desses encontros no PIÁ.  
No entanto, quantas vezes não quis me sobrepor a elas, fazendo a minha vontade prevalecer? Na maior parte das vezes isso me trouxe nada mais do que frustrações, pois querendo me referenciar ao que já conhecia, permanecia presa a códigos e caminhos determinados e que impunham a mim mesma uma retidão moral e corporal. Entretanto, ao passo que fui me abrindo para o tempo e o espaço presente de cada encontro no PIÁ, também a minha dança mudou, tornando-se mais fluída e leve.  
Assim, menos destinada a reproduzir alguns procedimentos de dança contemporânea nos encontros, o desafio foi o de captar forças. E, nesse aspecto, a própria dança ganhou novos sentidos para mim, pois muitas vezes era necessário abrir mão do movimento “dançado” para acessar outras coreografias, que acontecem em extensões que constantemente não se pretendem ser reconhecidas como “linguagem de dança”. Aliás, abrir mão de uma “certa de dança” era algo que de início me incomodou muito no PIÁ. Pra mim, era como se eu não estivesse exercendo a minha “competência”... Felizmente, aprendi muito, lembro-me de em várias conversas com a artista-educadora Karina Nakahara, ela ter me ajudado a perceber – sobretudo pelo seu modo assertivo de lidar com as crianças em cada encontro - que não há sentido em cristalizarmos um “dever-ser” para o que fazemos. A partir disso, não mais importava se o que fazíamos no PIÁ era chamado de dança, artes visuais, música ou teatro. Até mesmo a palavra artista-educador começou a me incomodar. Nos encontros, as crianças e adolescentes é que muitas vezes nos mostravam jeitos de desdobrar gestos inventivos e não o contrário.  
Por meio de uma aproximação cada vez mais afinada às necessidades de cada turma, considerando as variações diárias também em meu próprio corpo, pude atentar para os diferentes modos de estar presente e como potencializar a minha presença em cada encontro. Isso aconteceu nos momentos de maior dificuldade, nas situações mais angustiantes. Quando não fazia mais sentido preencher o tempo com um monte de ideias e/ou propostas pré-estabelecidas, quando os gestos e as falas se silenciavam é que algo parecia ser acessado de incomum na relação com as crianças. O vazio foi assim ganhando muita importância, sobretudo porque o que mais me chamou atenção nas atitudes das crianças - e minhas também - é a profusão de ideias, de propostas, de diferentes focos. A dificuldade de adensar, de se implicar realmente em uma experiência transformadora, por vezes me assustava.  Também porque isso requer um tempo, um espaço, enfim, condições muitas vezes inexistentes no PIÁ e onde ele acontece. Mas exatamente diante desses “obstáculos” é que esses encontros tornaram-se ainda mais interessantes para mim.  
A importância dos buracos 
Contudo, partir dos obstáculos a fim de construir um outro modo de estar junto, compreendendo o encontro e a singularidade de cada um ali presente, sem idealizações tem os seus riscos. Sobretudo porque quando se vai retirando os clichês das relações, tornando-as mais “simples”, experimentando estratégias sem querer saber onde elas irão chegar, começa-se a olhar para os nossos próprios “buracos”. Por outro lado, tal fato pode possibilitar aberturas a novos percursos na própria produção de si, do artista-educador e da criança como seres no mundo.  
Deste modo, é assim que me vejo nessa prática, querendo escavar, como uma arqueóloga mais e mais “buracos”, para fazer irromper o que é improvável nas relações. E, para isso, vi o quanto é necessário me preparar, conversando com as duplas de artistas-educadoras, voltando a atenção para cada turma e, no meu caso, registrando, tal como um modo de relembrar o que restou de cada encontro e o que se poderia retomar, desdobrar no encontro seguinte (ou não).  
Leio agora uma de minhas anotações e vejo que um dia escrevi sobre o incômodo de lidar com o fato de uma criança não querer adentrar a brincadeira que fazíamos.  Ao mesmo tempo, estávamos percebendo a sua retirada e o grupo, à sua maneira, deu respaldo para que ela pudesse fazer de outro jeito, criando sua própria brincadeira naquele momento. Coexistir num mesmo espaço-tempo, sem forçar uma integração foi algo que me fez repensar qual seria a ética do viver junto que estávamos ali construindo. Satisfiz-me em perceber tal experiência como liberadora, pois sem querer melhorar o outro (a criança “de fora”), tampouco fixar-lhe uma norma ou uma verdade, propiciamos-lhe cavar seu próprio buraco potente também em engendrar suas ficções. E, desse modo, conjuntamente esburacamos uma galeria inteira debaixo da terra, arejando-a, à moda das minhocas, para que outros seres vivos ali crescessem em solo fértil.  

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Pássaro

Pássaro: Relato de experiência
Ensaio Pesquisa-Ação – Programa de Iniciação Artística

Pedro Penuela

(Artista-educador CEU Cantos do Amanhecer; linguagem: dança)


“No reino de uma imaginação criadora aérea, o corpo do pássaro é feito do ar que o cerca, e sua vida do movimento que o arrebata”
(Gaston Bachelard[1])


            No CEU Cantos do Amanhecer, nas turmas das quintas-feiras (de  a 7 anos e de 8 a 10 anos), instados pela participação das crianças em um sarau na Biblioteca, experimentamos propor a elas dançar (ou "corporificar") fragmentos de poemas de Manoel de Barros:

            “Quis pegar/ entre meus dedos/ a Manhã./ Peguei vento”
(versos retirados do poema “A menina avoada”) [2]

 “Escuto o meu rio:/ é uma cobra/ de água andando/ por dentro de meu olho”
(versos de “Poeminhas pescados numa fala de João”)

“Vento?/ Só subindo no alto da árvore/ que a gente pega ele pelo rabo”
(idem)

 “As plantas/ me ensinavam de chão./ Fui aprendendo com o corpo.// Hoje sofro de gorjeios/ Nos lugares puídos de mim./ Sofro de árvores”
(versos de “Na fazenda”)

            Estes (e outros) trechos de poemas eram sussurrados no ouvido de cada criança, que, então, traduzia as sensações e imagens suscitadas pelo poema em uma performance silenciosa, envolvendo o corpo todo em movimento[3]. Em seguida, o poema era lido em voz alta.
O resultado dessa experimentação foi bastante impactante e nos maravilhou diante da abertura própria da corporeidade das crianças ao imaginário poético, do caráter tão imediato de sua comunicação com esse imaginário e de sua capacidade de traduzi-lo em presença corporal e gesto. Como coloca Laurence Louppe, “o corpo não é anterior ao seu próprio movimento; não existe uma substância-corpo prioritária, mas uma rede de interferências e de tensões através da qual o sujeito é constituído pelo próprio meio”[4]. A corporeidade brincante e móvel das crianças parece nadar em um universo próprio de ressonâncias e articulações entre os elementos materiais, que tenderíamos a reconhecer como desarticulados. Corpo em devir. Nas palavras precisas de Bachelard, “ao finalismo prático dos órgãos, exigido pela imperiosa necessidade das exigências imediatas, corresponde um finalismo poético que o corpo detém potencialmente”[5].
Nesta experiência, as sensações-imagens evocadas pela poesia de Manoel de Barros engendraram quase imediatamente no corpo a memória de certa intimidade com a natureza, que se revela no gesto das crianças, mesmo quando vivem em um ambiente urbano onde os pássaros, os rios, a mata, a terra, o vento, o céu parecem cada vez mais difíceis de acessar.
Além disso, cabe notar que os trânsitos entre palavra poética e corpo poético apontam possibilidades ricas de leitura e recepção do texto poético para além do “entendimento” verbalizado, e que podem ser pensadas como uma forma de “tradução intersemiótica”, isto é, de tradução de uma obra desde um sistema de signos para outro sistema de signos[6]. Ou ainda, para além da noção de tradução, a transposição da palavra para o movimento do corpo implica uma recriação, em que a apropriação do poema não se dá de maneira linear ou fiel, mas como um espaço de co-autoria, de reorganização da enunciação da obra original, de acordo com caminhos de afetos e apreensão singulares de cada recriador.
Vale dizer, ainda, que esse espaço transicional entre sistemas de signos (no caso, entre poesia e dança) implica uma maneira que nos parece potente e relevante de atuação sobre o princípio da “interlinguagem”, um dos eixos do Programa, na medida em que, não se trata de articular as linguagens dentro de algum tipo de hierarquização (em que uma linguagem é subsidiária à outra, como, por exemplo, quando se tenta “dançar a música” ou fazer uma produção visual como fundo de uma cena teatral) ou de sucessão linear (como, por exemplo, quando se recorre à dança como “aquecimento” para uma criação dentro de outra linguagem, ou à criação plástica como “registro” de outra criação), mas instaurar um espaço de diálogo, de trânsito recriador, assumindo as tensões, os silêncios, precariedades e potências próprios de cada sistema de signos (de cada “linguagem artística”, no caso), no encontro.
Nesse sentido, afetados por esse engendramento poesia-corpo e interessados nas possibilidades desse trânsito “intersemiótico”, fomos seguindo uma trajetória um tanto noturna, subterrânea, de associações de imagens poéticas e temas, que nos levou à imagem do pássaro (já insinuada no nome do livro de onde tiramos os poemas lidos inicialmente, “Compêndio para uso dos pássaros”) e à história do Uirapuru[7], mito de povos originários da Amazônia, que narra a origem do pássaro que canta um dos cantos mais bonitos da floresta dessa região.
Gaston Bachelard, já citado aqui, ao discutir o imaginário poético associado ao elemento ar, dá especial importância aos pássaros: “O pássaro é uma força ascencional que desperta a natureza inteira”[8].
Em alguns de nossos passeios com as crianças nas áreas externas do CEU, desde o início deste ano, propusemos que todos ficassem em silêncio e que quem escutasse o canto de um pássaro, levantasse a mão. A referência aos pássaros costuma sempre criar um silêncio amplo, denso, com uma qualidade bem especial – vontade de contato, de proximidade, sonho de voo. O canto nos aproxima, pulsar vindo do corpo do pássaro que viaja pelo ar e chega a nós como indício de sua presença, um pouco como a luz, que carrega a imagem de uma estrela depois de um percurso de milhares de anos pelo espaço. Pássaros e estrelas parecem falar de alguma coisa distante e ao mesmo tempo intimamente reconhecida. As crianças gostam de ouvir e de buscar o canto dos pássaros, como gostam de correr sentindo o vento atravessar o corpo, estendido por panos e objetos esvoaçantes. “Para a imaginação dinâmica, o voo é uma beleza primeira”[9].
O Uirapuru é um pássaro-canto, um índio apaixonado que tocava flauta, isto é, que fazia do ar-vento sua matéria de expressão (vento atravessando o corpo e, dele, impulsionado para atravessar o corpo do instrumento, e fazê-lo vibrar – metáfora de um encontro amoroso com a matéria do instrumento, o vento que sai do corpo fazendo-o soar). Som e vento foram delineando esse modo pássaro de criar que íamos construindo.
Partindo da história deste pássaro, que narramos para as crianças acompanhando-a por sons de instrumentos feitos de materiais como madeira e sementes (materiais próximos de elementos mais primários, mais diretamente ligados à terra e sua matéria – tipo de materialidade com que temos prioritariamente trabalhado neste ano), propusemos diferentes ações evocativas dos pássaros (e da intimidade entre ar-vento e corpo) – dançar com panos leves em frente a um ventilador, dançar e correr com fitas metalizadas que ondulam no ar, jogos de improvisação com o apoio desse tipo de objeto leve (fitas, tecidos, penas...), correr pelo ar livre e sentir o vento[10].
Em seguida, mostramos às crianças videos da coreografia de Luc Petton, “A confiança dos pássaros” (La confidènce des oiseaux)[11], em que bailarinos interagem com pássaros vivos, que voam pelo palco e pousam por vezes em seus corpos e em alguns suportes de madeira neles equilibrados. Inspirados por essa coreografia, brincamos de alternar os papeis do bailarino que dança lentamente, oferecendo partes de seu corpo como galhos de uma árvore, esperando o pássaro chegar e pousar, e o papel dos pássaros, que voavam-corriam abrindo e batendo suas asas-tecido e pousando de vez em quando no corpo de alguma criança-bailarino.
Ao equilíbrio dos suportes para o pouso dos pássaros, associamos, mais tarde, os móbiles de Alexander Calder e as “esculturas de ar” de Daniel Wurtzel[12], desdobrando essa temática em produções plásticas.
O corpo fluido e leve do pássaro em voo, corpo que imaginamos quase como puro movimento, feito do próprio espaço e nele sustentado, nos lembra e nos desperta o afeto de um corpo múltiplo, corpo em devir, fluxo de possibilidades e estados inconcebíveis a priori – “na maior parte do tempo, diferentes corpos circulam, visíveis ou invisíveis, no interior dos corpos dançantes, como vagas misteriosas, cujas referências corporais se confundem ou se sobrepõem”[13]. Dançar é também um pouco ser pássaro, ser o movimento e fluir no tempo (“fluir na imanência”, nas palavras do filósofo José Gil), como soprar uma flauta ou fazer do fôlego o canto é também encontrar um corpo-vento sonoro, corpo que faz do ar e do espaço elemento de atrito contra seus túneis e paredes internos, criador de vibrações e ondas no ar de fora. Como o flautista ancestral tornado pássaro, vamos descobrindo os desconhecidos e infinitos em que podemos nos transformar – o que não deixa de ser uma maneira nossa de voar.




[1] Bachelard, Gaston. O Ar e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 69.
[2] Barros, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, pp. 96, 97, 98 e 115)
[4] Louppe, Laurence. Poética da dança contemporânea. Lisboa: Orfeu Negro, 2012, p. 77.
[5] Bachelard, Gaston. Op. cit., p. 9.
[6] Cf. Diniz, Thaís F. N. Tradução intersemiótica: do texto para a tela. In: Cadernos de Tradução, Florianópolis, v. 1, n. 3, p. 313-338, 1998.
[7] Cf. Boff, Leonardo. O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil. São Paulo: Salamandra, 2001.
[8] Bachelard, Gaston. Op. cit. p. 70.
[9] Bachelard, Gaston. Op. cit. p. 66.
[10] Link de um video com algumas dessas performances das crianças: https://www.youtube.com/watch?v=Bxxbmst5cWs&list=UUxR3lAUvAqnaeOeLBwJmyVg

[12] Mais informações sobre o trabalho deste artista em: www.danielwurtzel.com/
[13] Louppe, Laurence. Op. cit., p. 81.