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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
EDUCADOR-PESQUISADOR - Reflexões sobre a documentação na pedagogia da infância.
Programa
de Iniciação Artística 2014
Ensaio de Pesquisa-Ação
Carolina
Bagnara Fernandes
Artista Educadora - Teatro
(CEU Parque Bristol)
Artista Educadora - Teatro
(CEU Parque Bristol)
Apresentação
No
contexto da Educação Infantil, debruçando-se sobre o tema da
documentação na Pedagogia da Infância, esse ensaio pretende
discutir dois aspectos que se relacionam: a intencionalidade das
práticas docentes e a valorização das experiências educacionais
através do registro e da reflexão.
A
partir das contribuições de alguns autores pesquisadores da
temática da documentação, o texto abordará a importância de
documentar pelo viés do engajamento e da profissionalização do
trabalho docente. Considerando as propostas educativas do norte da
Itália, da região da Reggio Emília, é notório o avanço
qualitativo da educação infantil presente nos relatos dos
educadores, desde as formulações teóricas até a transformação
das práticas e interações de aprendizagem. Essa observação nos
permite afirmar a intrínseca relação entre a documentação
reflexiva e a valorização do currículo que, flexibilizado e atento
às descobertas surgidas ao longo dos processos vividos pelas turmas,
é enriquecido de sentido e autenticidade. Para completar, o efeito
da presença do registro nas
experiências educativas
reverbera
ainda em
outros dois instrumentos metodológicos: o planejamento e a
avaliação, colocando-os em maior concordância com as necessidades
reais das crianças.
Por
todos esses aspectos, a reflexão proposta desemboca na defesa de que
a documentação deve ser encarada como ferramenta essencial à
prática educacional, seja
ela formal, como é o caso das creches e pré escolas, seja no
contexto de outros programas públicos, como é o caso do PIÁ.
Documentando
e compartilhando a prática educacional.
Nas
últimas décadas, investido de interesse por grande parte dos
pesquisadores e professores da educação infantil, o papel da
documentação tem ganhado um espaço inédito dentre as produções
e publicações da área. Muito influenciado pela experiência
italiana, esse campo apresenta-se como um caminho de estruturação
de uma atividade docente crítica, consciente e carregada de
intencionalidade educativa. As experiências vividas no cotidiano das
creches, pré escolas e demais programas de educação infantil, tais
como o PIÁ, necessitam ser pensadas, avaliadas e significadas. Para
isso, torna-se imprescindível retomar o cotidiano postumamente ao
tempo real, possibilitando
o
distanciamento do olhar daquele
que viveu a prática
educativa.
É neste ponto que a materialização da experiência, proporcionada
pelos diferentes meios de registro, permite que essa reflexão ocorra
ancorada na observação ativa do educador.
Existem
muitas possibilidades e combinações de recursos a serem utilizados
no processo de documentação. Anotações rápidas, textos, fotos,
vídeos, desenhos, gravação de sons etc. Cada um desses meios têm
suas especificidades, potenciais,
limitações e, por isso mesmo, atendem a diferentes demandas. Quando
o educador documenta sua prática educativa, ele está
impreterivelmente realizando escolhas. Ao optar por um ou outro
instrumento, ao escolher as palavras que melhor representam seu
pensamento, ao focar a câmera neste ou naquele ângulo, ao priorizar
uma fala da criança ou outra, ao ligar e desligar o gravador quando
sente ser aquele o momento certo, o educador desenvolve sua
capacidade de seleção. Nenhum registro é literal e desprovido de
subjetividade. Mesma a fotografia é um recorte, uma perspectiva
única e pessoal de seu autor. Desta forma, aquele que registra
compromete-se, concomitantemente, com seu trabalho. Em outros termos,
não é possível que um bom registro seja realizado mecanicamente. A
presença do educador é amplamente convocada na medida em que ele
necessita de uma aguda percepção de seu trabalho para que possa
realizar boas escolhas sobre o
que e
como
registrar.
Ao
mesmo tempo, por mais que esteja atento no
momento de seu encontro com as crianças,
o registro, quando
revisitado,
tende a revelar surpresas ao educador, e neste ponto reside um dos
tesouros dessa prática. Ao rever
os
acontecimentos,
através da contemplação do registro, o educador poderá descobrir
outras camadas, pistas, que não estavam
perceptíveis anteriormente. A documentação, como base de um
trabalho de pesquisa, reflexão e construção de teorias, é o que
direciona os próximos passos a serem tomados. Fugindo a todo tipo de
arbitrariedade, os processos educacionais embasados desta forma são
processos que rumam a um “aprendizado respeitoso” (GANDINI, 2002,
p.150). Isso que dizer que, partindo de uma concepção específica
sobre a infância, o educador que recorre às descobertas e reflexões
que seus registros proporcionam, prioriza compreender de que maneira
pode estimular suas crianças a desenvolverem-se, respeitando as
curiosidades, dificuldades e potencialidades que sinalizam. O
currículo flexibiliza-se na medida em que se constrói
coletivamente, levando em consideração as contribuições das
crianças e dos educadores-pesquisadores que compartilham pontos de
vista sobre o material documentado.
O
currículo é visto como decorrente das observações dos professores
sobre as ideias e os interesses das crianças, mas também é
elaborado conforme os professores pensam que poderá contribuir para
o crescimento delas. Portanto, professores e crianças constroem
juntos um plano flexível. Progettazione
é,
assim, um processo dinâmico baseado na comunicação que gera
documentação e que é reciclado por ela. (GANDINI, 2002, p.154,
grifo do autor)
Outros
dois instrumentos metodológicos para os quais transbordam esses
avanços são o planejamento e a avaliação. Entre muitos modelos de
planejamentos, é comum notar a presença de aspectos burocráticos e
artificiais que desvirtuam as práticas educacionais de seus reais
objetivos. Isso é, o planejamento do educador se reduz a uma
listagem de atividades pré-programadas e muitas vezes esvaziadas de
sentido e atratividade para as crianças. Quando há uma desconexão
entre o planejamento e a documentação, ou seja, o acompanhamento do
percurso do processo de aprendizagem, a intencionalidade do trabalho
é gravemente prejudicada. O cotidiano educacional fica refém de uma
concepção alienada das práticas educativas. O que expressa, na
verdade, certa concepção de criança e de educação infantil que
foge ao desejado. Nesses casos, “poderíamos assinalar que a
criança que aparece é uma criança passiva, sem particularidades ou
necessidades específicas, que espera pelo atendimento do adulto, sem
nada a dizer ou expressar.” (OSTETTO, 2000, p.180). Em
contrapartida, um planejamento ancorado na prática da reflexão
sobre o cotidiano é valorizado pela capacidade de interagir do
educador que, mais do que atividades, planeja um contexto educativo,
prevendo
situações significativas que
viabilizem experiências das crianças com o mundo físico e social,
em torno das quais se estruturem interações qualitativas entre
adultos e crianças, entre crianças e objetos/mundo físico.
(OSTETTO, 2000, p.193, grifo nosso)
O
mesmo movimento de democratização e participação coletiva pode
ser observado em relação aos processos avaliativos. A avaliação
deve ser vista como um instrumento de reflexão sobre o processo de
aprendizagem do qual as crianças fazem parte, assim como os
educadores. É triste verificar que na maioria das vezes isso não
acontece. “Geralmente, a avaliação é uma tarefa apenas para os
adultos: os professores comunicam
aos pais um parecer sobre os seus filhos, e as crianças sabem que
algo acontece, mas não fazem parte desse processo.” (BARBOSA e
HORN, 2008, p.114, grifo nosso). Compartilhar o material documentado
com as crianças e seus pais é uma oportunidade de refletir
coletivamente sobre a experiência vivida. Quando entram em contato
com o registro de suas práticas, as crianças percorrem um caminho
de conscientização do próprio processo e valorização de si
mesmas enquanto participantes do grupo. Em relação aos pais, além
da semelhante sensação de acolhimento, pode-se proporcionar uma
maior confiança entre a família e os educadores que, muitas vezes,
acompanham as crianças de perto naquilo que os próprios pais não
podem presenciar diretamente (GANDINI, 2002). Nesse sentido,
compartilhar do processo das crianças é um direito da família e
deve ser atendido em toda sua complexidade que vai muito além de
convites para reuniões mensais ou esparsos eventos sócias temáticos
que pouco dizem respeito à realidade cotidiana dos pequenos. A
avaliação coletiva deve se debruçar à contemplação ativa da
documentação, dos registros, das reflexões apontadas por todos os
participantes da comunidade de aprendizagem.
Considerações
finais – Educadores assumindo seus lugares de pesquisadores.
Como
vimos, documentar as práticas educacionais na escola da infância é
um processo que vai muito além do tomar nota. Ele nos proporciona um
espaço de reflexão íntima e, ao mesmo tempo, transcende a dimensão
individual quando agrega todo o coletivo composto pelos educadores,
crianças e familiares. Trata-se, como já foi dito acima, de uma
atividade docente bastante autoral. Nela, o educador se expõe,
desafiando a si mesmo quando se permite olhar para a própria prática
criticamente e compartilhar pontos de vista, dividir angústias,
ouvir análises críticas, opiniões, refazer o caminho. Gandini
(2002) afirma que a documentação permite aos educadores um contínuo
crescimento profissional. Dialogando com essa ideia, é importante
colocar também a dimensão do esforço e da coragem presente no
texto de Ostetto.
(…)
olhar para o cotidiano educativo e escrever o vivido implica
igualmente esforço e coragem. Esforço: porque exige disciplina,
disposição para novas aprendizagens, desalojando certezas,
convivendo com a dúvida e o movimento. (…) Coragem: porque, ao
refletirmos sobre o vivido, marcando na escrita a experiência, nosso
campo de visão se alarga e conquistamos a possibilidade de enxergar
além do nosso sucesso, (…) podemos ficar frente a frente com
nossos limites, nossas faltas, nossas angústias, nosso não saber.
(OSTETTO, 2008, p.24)
Acrescentado
a isso, há ainda uma grande dificuldade em escrever presente entre
os educadores. Ostetto (2008) sugere que o motivo da resistência em
documentar talvez esteja atrelado à falta de incentivo da escrita
durante todo o caminho escolar que, ao contrário do desejado, não
relaciona as atividades literárias ao exercício do livre pensamento
e da autoria crítica. Indo além, a não familiaridade com a
linguagem escrita pode potencializar o medo da exposição das ideias
e pensamentos, uma vez que, quando materializados no papel, ficam
ainda mais vulneráveis, porque podem ser retomados futuramente.
Frente
a essa questão, é interessante observarmos o quanto a socialização
dos fazeres pedagógicos está relacionada à qualidade da relação
construída pelo grupo.
A
socialização, a partilha, é, sem dúvida, necessária e
recomendável, mas é processo que se articula à conquista do
trabalho coletivo, no qual as singularidades devem ser respeitadas à
medida que evidenciadas. Ambientes livres de tensão, pautados na
confiança mútua que se estabelece no contínuo trabalho do grupo,
construindo identidade, certamente são ambientes para o cultivo
dessa prática. (OSTETTO, 2008, p.28)
É
preciso construir, entre os educadores, um círculo de pesquisa no
qual haja cumplicidade e todos partilhem de um objetivo educacional
prioritário. As discussões não devem ser evitadas, pelo contrário,
tratando-se de uma experiência educativa, é desejável que se
apresentem diferentes perspectivas. Discutindo o valor do conflito
intelectual, Edwards destaca que “o foco de uma discussão não é
apenas ventilar pontos de vista diversos, mas, em vez disso,
prosseguir até ficar claro que todos aprenderam algo e avançaram um
pouco em seu pensamento” (EDWARDS, 1999, p.167). Ela ainda nos
conta que presenciou alguns encontros entre os educadores da Escola
Diana, na Reggio Emilia, nos quais pôde notar a falta de
defensibilidade com que as educadoras recebiam longas crítica,
percebendo que “(...) entre eles mesmos, aceitam entrar em
discordâncias e esperam uma discussão extensa e críticas
construtivas; isso é visto como o melhor meio de avançar.”
(EDWARDS, 1999, p.168)
É
estimulante olhar para esse e outros exemplos positivos do uso da
documentação em benefício da qualidade das práticas da educação
infantil. Mais do que uma sugestão, a presença do registro e da
análise reflexiva do fazer docente é condição para que haja um
trabalho coerente e engajado em sua intencionalidade pedagógica. Não
se pode refletir, principalmente coletivamente, sobre o que não está
ao alcance de ser revisitado. Por isso, a documentação deve, cada
vez mais, ser considerada enquanto premissa de qualquer processo de
aprendizagem. Deve ser valorizada no âmbito da formação dos
educadores expandindo “nossa identidade de cuidadores de crianças
e estimuladores do desenvolvimento infantil para incluir a de
teóricos e pesquisadores” (GANDINI, 2002, p.168). Em outros
termos, apoiar a disseminação desta prática é também lutar pelo
protagonismo dos educadores em suas próprias formações
profissionais, elevando sua autoestima e acrescentando sentido ao seu
trabalho, ao seu cotidiano com as crianças, à sua pesquisa
contínua.
REFERÊNCIAS
BARBOSA,
M.C.S Da avaliação ao acompanhamento. IN: BARBOSA, M.C.S; HORN,
Maria da G.S. Projetos
Pedagógicos na educação infantil. Porto
Alegre: Artmed, 2008, p.103-116.
EDWARDS,
C. Parceito, promotor de crescimento e guia – os papéis dos
professores de Reggio em ação. In: EDWARDS, C; GANDINI, L.;
FORMANG,G. As
cem linguagens da criança. A
abordagem de Reggio Emilia na Educação da primeira infância. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1999, p.159-176.
GANDINI,
L. Duas reflexões sobre a Documentação. In: GANDINI, L; EDWARDS,
C. (orgs.) Bambini:
a abordagem italiana à educação infantil. Porto
Alegre: Artmed, 2002, p.150-169.
OSTETTO,
L.E. Planejamento na Educação Infantil: mais que atividade, a
criança em foco. In: OSTETTO, L.E (orgs.) Encontros
e encantamentos na educação infantil. Campinas:
Papirus, 2000. p.175-200.
_______________
Observação, registro e documentação: nomear e significar as
experiências. In: OSTETTO, L.E. Educação
Infantil: saberes e fazeres da formação de professores. Campinas:
Papirus, 2008, p. 13-22.
Marcadores:
CEU Parque Bristol,
criança,
Currículo,
Documentação,
Educação Infantil,
Formação de Professores,
pedagogia,
Pesquisa,
política,
Reggio Emilia,
Registro
terça-feira, 18 de novembro de 2014
O PIÁ COMO UMA RUPTURA ARTÍSTICO-PEDAGÓGICA NA CIDADE DE SÃO PAULO
O PIÁ COMO UMA RUPTURA
ARTÍSTICO-PEDAGÓGICA NA CIDADE DE SÃO PAULO
Bruno
César Lopes - Coordenador Regional Sul e Centro
(Esse texto foi encaminhado para a Revista Piapuru 2014 com a proposta de verbete "ruptura")
Ao longo de seus seis anos de
existência, podemos afirmar com certa ousadia que o PIÁ é um programa público
de iniciação artística de ruptura pedagógica na cidade de São Paulo. Antes de
apresentar os elementos que compõem tal característica, buscaremos levantar a
explicação do que entendemos como ruptura.
Herdamos dos chamados pensadores
rebeldes, como Derrida, Deleuze e Foucault a compreensão de que talvez não seja
mais possível uma receita política de transformação por inteiro da sociedade,
mas que vivemos um momento em que podemos transgredir
aquilo que é imposto pelo sistema ou pelo mercado. (MARTON) Será por meio desse
conceito de trangressão que iremos partir
e que explicaremos melhor adiante, relacionando-o com a idéia de ruptura.
Exercitar uma política de
transgressão, ou um viável exercício de ações de rupturas, parece ser a sina
daqueles que estão dispostos a lutar contra um sistema que tem como objetivo
final o lucro, a propriedade privada e a meritocracia. Como criar então um
programa público de reflexão e criação de processos criativos em meio a este
contexto?
A condição de nós, artistas,
professores, estudantes, pedagogos, começa a ser então a de cidadãos criadores
de fissuras na cidade. Aqueles que farão de suas ações artísticas e cidadãs um
exercício constante de ruptura dos velhos paradigmas de organização social,
pedagógica e educacional, num constante diálogo ético entre suas práticas e
seus discursos.
E isso não parece ser nada fácil de
construir!
A ruptura aqui como uma maneira de
desorganizar, de romper com as estruturas dominantes, de criar novas formas de
organização, de repensar a relação de ensino-aprendizagem e, sobretudo de estar
em constante movimento filosófico longe da cristalização conservadora. Ou ainda,
numa perspectiva foucaltiana, a ruptura como uma maneira de desarticular o
poder instaurado sobre os nossos corpos; de diluir a disciplina, essa arte de
dispor em fila e repartir corpos; de “desindividualizar” os corpos; de
desestruturar a idéia de controle social; de desregulamentar o tempo da ação
humana (FOUCAULT). Definitivamente é preciso criar rupturas. Numa tentativa de
compor forças para quem sabe obter um aparelho eficiente de construção de si e
do entorno. (FOUCAULT)
Diante desse prisma, entender o PIÁ
como um programa de ruptura passa a ser não apenas o exercício diário de um
artista educador, mas principalmente o exercício político da arte-educação.
Encontrar quais são esses pontos de ruptura, descrevê-los, reorganizá-los, afirmá-los
ou não, deve ser uma das importantes ações a serem feitas, e que buscaremos,
portanto, fazer neste texto.
Ao olharmos historicamente para
outros programas públicos de iniciação artística voltados para a criança, é
possível notar a constante preocupação com o tecnicismo da arte, com o produto
final e com a idéia da infância como uma “passagem” da vida numa negação dos
potentes quereres das crianças. Nesse sentido um dos primeiros elementos de
ruptura do PIÁ vai ser pensar A infância
como um grupo social capaz de mudanças históricas, políticas e artísticas. A
infância para o PIÁ não será necessariamente uma fase menor da vida, numa visão
hierárquica de desenvolvimento humano. A infância vista como uma “categoria na
estrutura social que manifesta variações históricas e interculturais” (NASCIMENTO)
As crianças são membros da sociedade, agem socialmente
nas famílias, nas escolas, nas creches, e em outros espaços, fazem parte do
mundo, o incorporam e, ao mesmo tempo, o influenciam e criam significados a
partir dele. (NASCIMENTO)
Em consonância com a maneira própria
de a criança agir no mundo é que o PIÁ vai buscar no ato de brincar sua
potência na relação “ensino e arte”. A
busca e a afirmação do brincar como uma conduta artístico-pedagógica. O
brincar como “fim” e não como “meio”, ou seja, fazer do brincar a própria
instauração do processo criativo e não um meio para se chegar na “obra de
arte”. Inverter o olhar sobre o brincar dando a ele os motivos propulsores da
iniciação artística, inclusive ampliando a ideia do brincar não apenas com uma
relação direta a brincadeira, mas o brincar enquanto condição e estado de
relação com o outro ou com as coisas ou ainda com os objetos; como a
materialização da expressividade não linear da criança, da ação do desejo em
movimento, de um “devir” deleuzeano (LARRAURI). O brincar vai ser atitude
uníssona nas atividades de todas as equipes espalhadas pela cidade no PIÁ. Além
disso, o brincar vai reunir em si a transdisciplinariedade proposta pelo
Programa, na “mistura” do Teatro, da Dança, das Artes Visuais e da Música. Não
é possível determinar no brincar uma das quatro categorias das artes. E um dos
focos de atuação do PIÁ é deixar cada vez mais borrada a linha que define as
linguagens, numa tentativa de rediscutir os modos de categorias das artes que a
academia historicamente segmentou. E nisso mais um elemento de ruptura surge: A iniciação artística por meio da
transdisciplinariedade. Um programa público que aposta na iniciação
artística com crianças por meio da não definição do que seria “teatro”,
“dança”, “música”, “artes visuais” ou um jeito único de pensar arte. Um
programa público que aposta na discussão contemporânea do que é fazer e
produzir processos criativos contaminados por todas as potencialidades
artísticas pré-definidas.
Por pensar a arte contemporânea com
crianças de maneira dinâmica, arriscada, disposta ao erro e ao abismo, o PIÁ
terá como pressuposto: O artista educador
como um constante pesquisador. Será aquele artista disposto a problematizar
o presente para o presente. Aquele que explora o caminho ao mesmo tempo em que
caminha. (LARROSA). Não será o detentor do saber nem da razão, mas aquele que duvida
dos métodos prontos, que olha sua prática como uma pesquisa em movimento. Que se
pergunta freqüentemente de maneira “ignorante” as perguntas: “O que vês? O que
pensas disso? O que fazes com isso?” (RANCIÈRE). Por fim, um pesquisador que
tem sua atenção voltada para o diálogo-triângulo: adulto (eu), criança e adulto
(o outro artista-educador).
Esse formato “triângulo” é também
considerado aqui uma das rupturas nos sistemas de iniciação artística dos
programas espalhados na cidade. Portanto, é preciso entender como ruptura As características técnicas do programa.
Ou seja, entender como disruptivos em si os próprios mecanismos interiores do
programa, que são: uma equipe composta por quatro artistas em cada equipamento;
a dupla de artistas-educadores (todas as turmas são orientadas por dois
artistas educadores ao mesmo tempo); a divisão de faixa-etária (turmas de 5 a 7
anos, 8 a 10 anos e 11 a 14 anos); o número razoável de crianças por turmas (de
15 a 25 crianças por turma); as reuniões pedagógicas semanais; e a função do
coordenador-artista-educador (um dos quatro artistas educadores da equipe tem
como função a coordenação da equipe em articulação com o equipamento e com a
Secretaria de Cultura).
A manutenção e garantia dessas
características técnicas são fundamentais para o fortalecimento do Programa
como ruptura. Será preciso ao longo dos anos um olhar delicado sobre essas
formas de organização, uma vez que alguma tentativa de desestruturar esses
meios pode vir a ser um risco na potência do Programa. Ou seja, o entendimento
de que ainda que estejamos sendo potência de ruptura é necessário estarmos com
uma base de um aparelho consistente, que seja, sobretudo, reavaliado e
reelaborado pelos próprios fazedores desta ruptura: os artistas-educadores do
Programa.
Outra ruptura visível é A organização pedagógica do programa realizada
por meio de sua experiência, ou seja, uma busca constante de uma sistematização
que nasce a partir do fazer, da prática. E que mesmo sendo “sistematizada” não tende
a ser engessada. Um olhar que vai criar os modos teóricos da iniciação
artística a partir da experiência, na relação com a criança, com o equipamento
público e com seus vizinhos. “Experiência” no sentido que Larrosa nos traz: “A
experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca.” (LARROSA).
O PIÁ vai, portanto, ter a audácia de, ainda que com referências muito claras
como a EMIA (Escola Municipal de Iniciação Artística), buscar entender sua
organização pedagógica por meio de sua própria experiência. E diferente do
pensamento hegemônico, sobretudo na Educação, que necessita urgentemente de
cartilhas e normas, o PIÁ mais uma vez cria uma ruptura ao apostar no
desconhecido.
Vale salientar nessa etapa que a
disposição em criar uma sistematização pedagógica a partir de uma idéia de
ruptura, acaba criando por si só uma linha de tensão, na medida em que
“sistematizar” e “causar ruptura” parecem forças opostas. Mas a defesa que
propomos aqui é justamente a busca por este desafio dialético e construtivo
para o próprio Programa, como numa disputa entre dois pólos de um imã com
forças de atração e repulsão num campo magnético.
Além disso, a atuação do programa
nas bordas da cidade faz dele uma proposta de descentralização e irradiação de
arte na cidade. Em qual espaço geográfico na cidade estamos atuando? A criança e a periferia como potencialidades
artístico-políticas. A afirmação do PIÁ na periferia constitui já em si uma
ruptura na medida em que democratiza o dinheiro público para uma parcela da
sociedade que é forçosamente distanciada, geograficamente e socialmente, dos
acessos artísticos. Com isso, a junção criança e periferia pode vir a se
transformar numa potência artística, que deflagre a normalidade com que se
tornou a falta de programas públicos para infância, e que deixe de ser apenas
assistencialista, mas que faça da própria criação artística seu instrumento de
luta e denuncia do status quo
vigente.
Por essa ótica periférica,
apresentamos então o último elemento de ruptura já pesquisado, causador das
maiores discussões. Aproveitamos para encaminharmos também para algumas
reflexões e desafios a serem seguidos pelo PIÁ.
Um programa marginalizado
dentro de uma instituição pública. Marginalizado no
sentido daquele que esta “à margem”. À margem do sistema, à beira dos programas
já bem estruturados e bem financiados. Marginal no sentido de ser desviante em
relação a tudo o que se pretende oficial. “De ser o representante de
descaminhos culturais e políticos” (COELHO). A ação-piá que incomoda, que
muitas vezes perturba a “paz” que reina nos equipamentos públicos, que assim
como a criança, um PIÁ que incomoda, que pergunta, que questiona, que não pára.
Mas como é possível ser marginal dentro da instituição pública? Como é
possível, por exemplo, ser marginal dentro de uma Fundação, uma ONG
(Organização Não Governamental) ou uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de
Interesse Público)? Esse talvez seja o maior dilema atual do Programa.
Um
programa que recebe dinheiro público para problematizar o próprio uso público.
Um texto como este dentro da própria Revista do programa. O Estado que
proporciona uma política contra sua própria corrente. Até quando teremos essa possibilidade
de se auto criticar de forma legítima e aberta? Como conviver com essa
dialética? Como conviver com as incoerências postas dia-a-dia em nossos
fazeres? Como não se institucionalizar dentro da máquina pública?
Para
sermos um programa de ruptura estaríamos fadados a sermos um programa marginal?
Teríamos que estar sempre à margem, na borda, na periferia do sistema, para
continuarmos criando rupturas? Qual o risco que corremos de conquistar o
“aceite” da máquina pública e com isso destruirmos nossa capacidade de criar
rupturas? Quando o “fardo” de ser marginal se tornará em orgulho de luta?
Não como resposta, mas talvez como
encaminhamento, arriscamos dizer que a influência do olhar da criança possa ser
nosso horizonte. Se o que buscarmos for uma prática política que se faz sem líderes,
sem representantes, sem aparelhos, sem instituições, sem burocracias e sem
receitas, seria com a lógica da criança e por meio dela, com a lógica da
ruptura que poderíamos continuar a caminhar.
A potência da ingenuidade e da entrega para o abismo como modus operandi político. Ingenuidade no sentido de movimentar-se
para dentro de uma situação (sufixo dade) de franqueza extrema (ingênuo). No
âmbito ético da palavra, daquele que encara as relações sem culpa, sem juízo de
valor, sem a pretensão do acerto, mas que também não é tolo, nem imaturo e
muito menos apolítico. A ação política como criação e invenção. E de criação e
invenção as crianças têm muito a nos oferecer.
Por fim, que possamos fortalecer os
aspectos de ruptura aqui apresentados e que continuemos a caminhar em busca de novas
políticas, que só podem ser feitas através de um questionamento crítico. Questionamento
este, amalgamado sempre pela visão, especial e única, da criança.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
COELHO,
Frederico. “Eu, brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal
no Brasil das décadas de 1960 e 1970”. Pág. 19. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2010.
FOUCAULT,
Michel. “Vigiar e punir: nascimento da prisão”. 20ª edição. Petrópolis: Editora
Vozes, 1999.
LARRAURI,
Maite. “O desejo segundo Gilles Deleuze”. São Paulo: Ciranda Cultural, 2009.
LARROSA,
Jorge. “O ensaio e a escrita acadêmica”. In: Educação e Realidade. Pág. 101 a
115. Jul/dez 2003.
________.
“Notas sobre a experiência e o saber da experiência”. Universidade Estadual de
Campinas, Departamento de Lingüística. Pág. 21. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/
rbedu/n19/n19a02.pdf
rbedu/n19/n19a02.pdf
MARTON,
Scarlett. “Foucault, Deleuze e Derrida frente à crise”. Disponível em: http://youtu.be/vyPTweS6Cvo.
Acesso em: 26 jul. 2014.
NASCIMENTO,
Maria Letícia Barros Pedroso. “A infância como fenômeno social”. Cultura e Sociologia da Infância. Pág.70
a 82. Edição Especial Revista da Educação, São Paulo 2013.
RANCIÈRE,
Jacques. “O mestre ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual”.
Pág. 44. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
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